Santa Maria – Cerca de 40 mulheres em situação de vulnerabilidade social participaram, nono chamado Coração do Rio Grande, do curso “Faça e Venda com aproveitamento integral de alimentos”. A capacitação ocorreu entre segunda-feira 24 de maio e quinta-feira 27 de maio, na associação comunitária do bairro Dom Ivo Lorscheiter.
A ação foi promovida pelo projeto PROMOVER, ligado ao Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria. O principal objetivo foi incentivar o empreendedorismo feminino, gerar renda e combater o desperdício de comida.
Além disso, a iniciativa reforça uma prática importante para comunidades do Pampa Gaúcho e de regiões periféricas: aproveitar melhor os alimentos e valorizar o cuidado coletivo, fortalecendo o sentimento de um verdadeiro Pampa Sem Fronteiras.
As informações são da página eletrônica da UFSM.
Chef Regina Tchelly compartilha experiência com mulheres
A formação foi conduzida pela chef paraibana Regina Tchelly, conhecida nacionalmente pelo trabalho com gastronomia sustentável.
Ela criou o projeto Favela Orgânica, no Morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, com apenas R$ 140. Desde então, passou a viajar pelo Brasil ensinando famílias e comunidades a transformar alimentos que seriam descartados em refeições e fonte de renda.
Segundo publicação da UFSM, o Brasil desperdiça cerca de 55,4 milhões de toneladas de alimentos por ano. Os dados são do relatório “Diagnóstico sobre a Fome e o Desperdício de Alimentos no Brasil”, divulgado em 2022.
Frutas, verduras, tubérculos e laticínios estão entre os alimentos mais desperdiçados. Justamente por isso, esses ingredientes foram usados durante as oficinas realizadas em Santa Maria.
Curso busca renda e autonomia financeira
De acordo com a organizadora Isabel Lopes Moreira, Regina foi escolhida por ser referência nacional no aproveitamento integral de alimentos.
Além da culinária, o projeto também busca fortalecer a autonomia financeira das mulheres.
“A ideia é dar condições para que elas possam gerar renda e conquistar independência”, destacou Isabel.
As participantes foram selecionadas por chamada pública. Segundo a coordenadora Rita Pauli, um dos critérios principais foi a situação de vulnerabilidade social.
Além do curso gratuito, as mulheres receberam bolsa de participação. Dessa forma, puderam frequentar as atividades sem prejudicar a renda da família.

Participantes querem empreender com culinária
A participante Suelen Medeiros, de 40 anos, contou que pretende aplicar os conhecimentos na cozinha solidária onde trabalha, na Vila Lorenzi.
O espaço produz refeições três vezes por semana para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Atualmente, mais de 150 marmitas são distribuídas para trabalhadores recicladores da região.
Já Pamela Martins Soares, de 30 anos, afirmou que vê o curso como uma oportunidade de recomeço profissional.
Natural de Canudos e moradora de Santa Maria desde criança, ela decidiu participar da capacitação para aprender mais sobre culinária e buscar uma nova fonte de renda.
“Quero aprender coisas novas para empreender. Estou desempregada no momento e gosto muito de cozinhar”, relatou durante o curso.
Regina Tchelly relembra início do Favela Orgânica
Durante a oficina, Regina contou que aprendeu desde pequena a aproveitar integralmente os alimentos. Segundo ela, a tradição veio da mãe e da avó, ainda na Paraíba.
“Lá na Paraíba é comum aproveitar tudo da comida”, afirmou.
Antes de ganhar projeção nacional, Regina trabalhou como empregada doméstica no Rio de Janeiro. Porém, ela nunca desistiu do sonho de usar a culinária como ferramenta de transformação social.
O projeto Favela Orgânica surgiu há cerca de 15 anos, depois que Regina percebeu a grande quantidade de alimentos desperdiçados nas feiras livres da comunidade da Babilônia.
“Eu vi muito desperdício e resolvi aproveitar até o talo dos alimentos”, relembrou.
Redes sociais ajudaram projeto a crescer
Regina também destacou que as redes sociais ajudaram a ampliar o alcance do projeto.
Segundo ela, o trabalho ganhou força de forma simples e verdadeira, chegando a diferentes regiões do Brasil.
Hoje, a chef já participou de programas de televisão, como o “Mais Você”, apresentado por Ana Maria Braga, além de realizar palestras na Europa.
Em Santa Maria, Regina afirmou que o principal objetivo da oficina foi incentivar mulheres periféricas a acreditarem no próprio potencial.
“Tenho certeza que vão sair cozinheiras mais fortes, líderes e multiplicadoras do aproveitamento integral de alimentos”, projetou.
(Imagem de capa: Reprodução)
