Crônica de la Pampería e de ‘Uma terra só’

Crônica de la Pampería e de ‘Uma terra só’

Rio Branco – Tordilho, nosso atento amigo, fez cara de quem entrava pela primeira vez no país vizinho. O outro fingido desta história vestia os trajes de cronista, como se a paisagem do lado brasileiro do Rio Jaguarão fosse um mundo distinto. Aldyr Garcia Schlee já havia cravado: falamos de “Uma terra só”. Nesse momento, fiz um carinho no pescoço do nobre animal, que assentiu diante do óbvio.

Por um instante, o superficial. Alfajores, vinhos e otras cositas más da cultura dos free shops. O Uruguai era somente horizonte. E, neste retrato de mundo, venta. Venta muito. Ou, quando não venta, o ar parece refrigerado. Por vezes, até parece que abriram uma geladeira gigantesca no Polo Sul e a friaca escapou pelos campos. Naturalmente, falamos de um período específico do ano. Junho começa e nossa saga, que parece ter fim justamente por se propor curta, insinua agora um olhar de ensaio.

Neste ponto da história, saltamos do cavalo. Então caímos na realidade, com a bota afundando num solo movediço. Para quem não conhece, o Pampa tem dessas armadilhas discretas. Logo adiante, pasta o gado cuja carne é a melhor do mundo. Forçando a vista, até surgem enormes avestruzes que respeitam a baixa altura dos cercados das estâncias. Ao fundo, quero-queros espalham-se pela paisagem, sempre vigilantes na defesa de filhotes e ninhos escondidos pelo campo.

Pela memória atravessam figuras conhecidas. Senhor Doc. se nota ausente por priorizar as teorias de um curso universitário. A Musa do Estação também se mostra ocupada, no caso, entre a academia e os levantamentos de peso. Ia citar outra persona amiga, igualmente desaparecida destas páginas, mas, como não tenho autorização por escrito, a gente disfarça a referência e segue em frente.

A esta altura, a cavalgada atravessa Rio Branco. De repente, o peito estufa e, de dentro dele, salta ela. Dulcineia pampiana, trazendo consigo toda uma “cultura hispânica” e traços visíveis de Cleoplata renascida. Ela, com sua cruz tatuada no peito e, desta vez, a novidade de um olhar intimidador.

Ou era sonho.

Ou juras nada secretas para uma crônica seguinte.

Cronista de la Pampería

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