Ponte Barão de Mauá – Ponte Internacional Barão de Mauá. Dito assim, “por extenso”, este cronista sem fronteiras não consegue esconder um velho lado imitador. Contudo, as referências não param por aí. Ou talvez devessem parar… Na verdade, quando muito explicadas, acabam adquirindo um ar acadêmico e enfadonho além da medida.
Por isso, passamos o apagador na tela e recomeçamos. Um novo capítulo travestido de nova crônica.
Já é possível ouvir os passos sobre o concreto da travessia que “une”, simbolicamente, Brasil e Uruguai na banda leste. Este episódio ocorreu dia desses. Ou talvez aconteça agora mesmo. Quem sabe o tempo, nesta história, seja apenas detalhe secundário. O horizonte do Pampa testemunha a cena, enquanto surge aquilo que um nariz teimaria em chamar de “Las tardecitas de Jaguarão… qué sé yo?”, embalado pela melancolia de um velho bandoneón.
“Antes só do que acompanhado e narrando sozinho?”
Por isso, nos vemos em trânsito com um exemplar de Ilusões perdidas, adquirido num sebo de Porto Alegre. Livro do mesmo autor que um dia escreveu, com a solenidade de uma verdade impossível de desmentir: “Por trás de toda grande fortuna há um crime”.
“Inapelavelmente”, cochicha o velho mestre Nelson Rodrigues à luz de um antecedente francês, que nos ilumina desde sempre.
Tudo isso para dizer que, no exato instante em que atravessávamos a Ponte Barão de Mauá, algo de solene e profundamente humano parecia prestes a se repetir.
“Deu dois passos para frente. Em seguida, dois passos para trás.”
Esta velha mania de escrever para a crítica e esquecer, por vezes, quem realmente importa: o leitor.
Este personagem dava o primeiro passo em direção ao palco uruguaio, como quem saudasse Astor Piazzolla e seu tango nuevo em pleno “outono pamperiano”, evocando, quase sem perceber, uma conhecida Balada para un loco:
“Qué sé yo…?”
“Mezcla rara de penúltimo linyera¹…”
[Corta para a próxima cena dramática.]
¹ Linyera: expressão popular do espanhol rioplatense utilizada para definir o sujeito andarilho, boêmio ou marginal urbano. No universo do tango portenho, a palavra também assume um sentido poético ligado à melancolia e ao deslocamento existencial.
Cronista de la Pampería
