Porto Alegre – A ativista Marcelly Malta Lisboa, uma das principais lideranças históricas do movimento trans no Brasil, morreu neste sábado 4 de julho, em Porto Alegre, aos 75 anos. Reconhecida nacionalmente por sua atuação em defesa dos direitos humanos, Marcelly deixa um legado marcado pela luta por cidadania, acolhimento e igualdade para travestis e pessoas trans.
Sua morte provocou manifestações de pesar de entidades e movimentos sociais de todo o país. No Rio Grande do Sul, onde construiu grande parte de sua trajetória, Marcelly tornou-se símbolo de resistência e inspiração para novas gerações. Seu trabalho também reforça a importância da defesa dos direitos humanos no Pampa Sem Fronteiras, região marcada pela diversidade cultural e pela busca por inclusão social.
Marcelly Malta Lisboa foi referência nacional na luta pelos direitos trans
Vice-presidenta da Rede Trans Brasil e liderança histórica da ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul –, Marcelly dedicou décadas à defesa da cidadania, da dignidade e dos direitos da população trans.
Ao longo da vida, fortaleceu a organização política do movimento, ajudou a ampliar a visibilidade das pessoas trans e travestis e enfrentou preconceitos, violência e exclusão social.
Em nota pública, o Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTI+ afirmou que Marcelly “fez de sua vida um caminho de coragem, resistência, acolhimento e luta por dignidade”. A entidade destacou ainda que seu legado permanece vivo nas conquistas alcançadas e nas lideranças que ajudou a formar.
Uma trajetória marcada por coragem e resistência
Nascida em 1951, na cidade gaúcha de Mato Leitão, Marcelly mudou-se ainda jovem para Porto Alegre, onde iniciou sua militância.
Durante a ditadura militar, sofreu perseguições constantes. Conforme relatos da própria ativista, foi presa mais de 200 vezes apenas por usar roupas femininas e expressar sua identidade de gênero.
Mais tarde, na década de 1980, durante a epidemia de HIV/AIDS, abriu as portas de sua casa para acolher travestis adoecidas. Naquele período, marcado pelo preconceito e pela falta de políticas públicas, ofereceu apoio, cuidado e solidariedade.
Em 1999, fundou a ONG Igualdade, uma das primeiras organizações voltadas à defesa dos direitos da população trans no Rio Grande do Sul.
Conquistas que fizeram história
Marcelly também foi uma das primeiras travestis brasileiras a obter na Justiça o reconhecimento de seu nome civil sem abrir mão de sua identidade travesti.
Além disso, presidiu o Conselho Municipal de Direitos Humanos de Porto Alegre, exerceu a vice-presidência da Rede Trans Brasil e tornou-se servidora pública concursada após concluir o curso de auxiliar de enfermagem.
Essas conquistas abriram caminhos para muitas outras pessoas trans e ajudaram a fortalecer a luta por igualdade no Brasil.
Entidades prestam homenagens
A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) classificou Marcelly como uma das mais importantes pioneiras da história do movimento trans brasileiro e uma verdadeira “traviarca” da luta pelos direitos da população trans.
Segundo a entidade, sua trajetória atravessou décadas de enfrentamento à violência, ao preconceito e à exclusão social, deixando uma contribuição decisiva para a consolidação do movimento trans no país.
A ANTRA também destacou que teve a oportunidade de homenageá-la ainda em vida, reconhecendo sua coragem, dedicação e contribuição histórica aos direitos humanos.

Legado permanece vivo
Ao ultrapassar os 70 anos, Marcelly tornou-se símbolo de resistência e longevidade para a população trans brasileira, cuja expectativa de vida ainda permanece inferior à média da população.
Sua atuação contribuiu para fortalecer políticas públicas, ampliar o reconhecimento dos direitos da população LGBTQIA+ e inspirar novas lideranças em diferentes regiões do Brasil.
Por isso, organizações sociais, ativistas e movimentos de direitos humanos destacam que sua história continuará inspirando futuras gerações. O legado de Marcelly Malta Lisboa permanece associado à defesa da dignidade, da cidadania, da igualdade e do respeito às diferenças.
