Jaguarão – Na última crônica, estávamos num bar querido. Lembram-se? Lá, onde o povo mais entusiasmado sobe à mesa, sem cerimônia, para decretar: “Em Jaguarão, ‘o point dos professores’ é o Estação!”. Ficou claro onde professor digno de nota – com o perdão do trocadilho – tem parada obrigatória.
Saímos do point. Ao lado do cronista, um documentarista – figura que, por descuido narrativo, não foi devidamente apresentada antes. Talvez o cronista estivesse ocupado demais em prestar homenagem a certa musa. O “parça”, importado de outro estado da federação, começa agora a ser iniciado nos ritos e encantos do nosso pampa. Era uma quinta-feira dessas que não passam: apenas se repetem, com pequenas variações, como todas as quintas do Estação.
No trajeto até o Vip Bebidas, a poucos metros dali, um diálogo de amigos irrompeu, desses que brotam sem aviso:
– E aquele cara que saiu da plateia no Estação e cantou em espanhol fluente…? Cantou mais do que os contratados!
(Nessa passagem, gargalhamos; e talvez tenhamos exagerado no juízo.)
Antes de chegar à Adega, como chamamos o Vip, pensei em arrepiar a banca:
“Quero ‘duas Stella’ de procedência duvidosa!”
Pensei melhor. Desisti da bravata retórica. Há lugares em que a ironia pede licença antes de entrar.
Esperei o amigo escolher. Uma atendente conhecida serviu um litraum de Brahma, dividido em dois copões de plástico: solução democrática, como convinha… Saímos mais leves. Caminhando e bebericando a cerva pelo chão sagrado da Cidade Heroica; seguimos em conversa solta, dessas que não sabem onde começam nem para onde vão.
– Maano… a professora é bem bonita, mesmo!
O amigo documentarista e recém-chegado não conseguiu esconder a impressão deixada momentos antes na casa mais querida dos professores de la Pampería.
Já meio “altos”, mas ainda lúcidos o suficiente para reconhecer o instante, trocamos um olhar de riso sincero. Desses que não se explicam. Desses que ficam. Desses que viram memória.
E, quem sabe, história contada – dessas que sempre voltam, como as quintas do Estação Chopp Bar, pedindo mais uma cerva e, de quebra, outra crônica.
Cronista de la Pampería
