Jaguarão – Tocava música ao vivo na Estação Chopp Bar, um conhecido point da Cidade Heroica. Esta é, antes de tudo, uma história de memória.
Ela estava lá. Sentada à mesa, conversava com uma espécie de don juan. Isso se via no olhar – sejamos justos. Com o tempo, o conquistador deixaria de existir como tal. O que ficou foi a imagem. Aquela cena suspensa no tempo: um “romeu” falando com a sua possível Julieta.
Seria ela uma Julieta? O que importa é que a história resistiu; como resistem certas presenças que insistem em permanecer, mesmo depois de tudo. E, por um instante, o narrador quase se entrega a uma leve dor de cotovelo. Mas não. Esta história quer ser mais profunda, impessoal.
Voltemos.
Ela é professora na rede municipal e também na estadual, em Jaguarão. É o máximo que se pode revelar sobre a musa desta crônica. O resto, fica nas entrelinhas.
Sabe-se, no entanto, que ela possui uma legião silenciosa de admiradores. Ela não salva vidas de forma heroica, como nos filmes de guerra. Mas, no cotidiano do Pampa, ela faz a diferença; e das grandes. Talvez por isso permaneça real, viva em nossa memória e no fundo do coração: como uma heroína digna, dessas que não vestem capa, mas sustentam mundos.
Quando fala, do nosso cenário de mundo, é difícil não notar o respeito ao redor. Há admiração; ainda que discreta. Talvez ela não saiba. Talvez saiba, e por zelo, escolha o silêncio.
Tenta não se expor nas redes sociais. Tenta. Mas há presenças que escapam ao controle. Há pessoas que simplesmente acontecem.
Quem narra esta história sabe, ao menos, o seu lugar: o de observador. Um ciclista cotidiano, que cruza no dia a dia pavimentos históricos; às vezes pela tarde, às vezes à noite. E foi assim, mais de uma vez, que a personagem principal surgiu radiante no nosso horizonte. Sem aviso. Como se já estivesse ali desde sempre.
Ela é, sem exagero, uma mulher que a própria rotina decidiu transformar em novela.
Quer mais uma pista? Ou é melhor preservar o mistério da narrativa?
Talvez, nos outros capítulos, nas próximas crônicas, ela volte ainda mais viva, mais nítida, más inevitable, desde este lado del río.
Cronista de la Pampería
