Átila e eu. Por Daniel Baz

Átila e eu começamos nossa relação com uma antipatia mútua. Confesso que não estava com o melhor dos humores quando cheguei do trabalho e percebi que, de toda a vizinhança, apenas a minha casa estava sem luz. Disquei o número da CEEE, com aquela indisposição de quem gostaria de estar de banho tomado, curtindo um disco no Spotify ou uma série na Netflix, e se encontra ainda com a roupa do trabalho, curtindo (sic) dez minutos daquela musiquinha de espera no ramal de atendimento ao consumidor da empresa.

Depois desse tempo, o Átila atendeu ao telefone, perguntando, de um jeito mecânico, em que ele poderia me ajudar. Me senti um pouco intimidado por aquele nome potente, forte, assertivo. Alcunha que batizou não apenas o famoso conquistador uno, mas também um cão da raça boxer que vivia na minha quadra quando eu era adolescente, fera conhecida por latir para motoqueiros, crianças, senhoras com sacolas trazidas da feira e devorar qualquer gato que desse o azar de cair no seu território. Na minha cabeça, portanto, o atendente da CEEE era uma espécie de cachorro com coroa e espada, pronto a atacar os gatos de Constantinopla, ou então um rei de quatro patas e hidrófobo com uma sacola de feira entre os dentes ensanguentados. Eu já começara em desvantagem.

Disse meu nome ao atendente com uma certa vergonha de o possuir. Não conseguia lembrar de ninguém potente, forte e assertivo que se chamasse Daniel. Só conseguia pensar no cantor sertanejo e no guri que interpretou o Harry Potter, nada que me servisse nessa guerra teutônica e testosterônica de egos. Respirei fundo, engoli o medo, e expliquei ao Átila o motivo da minha ligação. Ele – após pedir aqueles dados genéricos (CPF, CEP, RG), que só servem para nos lembrar que, da porta para fora da nossa morada, somos apenas um amontoado de algarismos que não ouvem discos no Spotify nem assistem a séries na Netflix – revelou que a instalação do meu contador estava equivocada.

Minha casa, segundo Átila, deveria ter um relógio bifásico e não monofásico como era o atual, o que revelava uma irregularidade séria, e ele disse “séria” com uma voz tipo Gerard Butler (que interpretou não apenas o huno no cinema, mas também o Leônidas de Esparta). Apesar dos temores e tremores que me frequentavam, consegui informar ao Átila que já sabia de tudo isso. Expliquei a ele que a CEEE tinha visitado a minha casa logo que me mudei, e que, de acordo com os responsáveis pelo atendimento na época, tudo tinha sido resolvido. O Átila, com uma voz cada vez mais impaciente, que faria gelar visigodos e romanos, insistiu que não havia remédio a não ser me deixar sem luz até a regularização da minha rede elétrica, algo que poderia levar 48h para ser feito.

Depois disso, ficou em silêncio. Eu, com uma vela em uma das mãos e um fósforo na outra, ainda tentava escapar do meu déficit nominal. Meu cérebro tartamudeava um mantra patético: Daniel de Oliveira, Daniel Resende, Daniel Day-Lewis… Não havendo nenhuma personalidade que diminuísse aquela desigualdade de batismo, voltei a mim antes que o Átila desligasse o telefone e perguntei, com o tom mais respeitoso que encontrei, se não era possível agilizar o processo para que eu não passasse dois dias às escuras. O Átila, um pouco mais calmo, satisfeito com a reverência que eu lhe dedicara, respondeu que seria necessário fazer um inventário de todos os eletrodomésticos que eu possuía, censo esse que poderia ser feito com ele mesmo, por telefone.

Em vista da minha concordância, o Átila começou seu questionário. Quis saber quantos moravam na minha casa. Sua quantidade de cômodos. O número de quartos e de banheiros. Máquinas de lavar e de secar. Computadores. Liquidificadores. Em menos de dez minutos, eram tantas as informações prestadas, que seu nome poderia figurar na capa da minha biografia.  A cada resposta, Átila foi também se abrindo um pouco mais. Seus ahãs e oks, eu conseguia notar, estavam cada vez mais amistosos, desarmados. Ainda era Gerard Butler, isto é certo, mas agora em uma comédia romântica. Doce e gentil. Aquele questionário já não intimidava, mas intimizava. Átila perguntou se eu tinha algum forno elétrico. Respondi que não, mas que possuía uma churrasqueira elétrica há mais ou menos um ano. Ele revelou que churrasqueiras elétricas não constavam no seu cadastro. Disse que abriria um item novo para mim.

Vi naquilo um gesto de boa fé. Átila estava disposto a mexer em sua tabela, o que mostrava certa sensibilidade em relação à minha situação. Na próxima confraternização de fim de ano da CEEE, ele contaria aos colegas sobre o dia em que um tal de Daniel de Rio Grande, sujeito com voz fina, de boneco de ventríloquo, fez ele ser eleito funcionário do mês com a genial sacada de incluir o item “churrasqueira elétrica” nos questionários da companhia estadual. Eu lhe entregara mais uma glória futura. Fiquei animado com os rumos da negociação. Átila ainda quis saber dos eletrodomésticos utilizados em partes específicas da casa. Secador de cabelo: check. Cortador de grama: check. Batedeira: check. Aquilo foi me dando confiança.

Perguntou da potência do ar-condicionado. Disse que o nosso era de nove mil, mas, nesse calor fora de época, não estava dando conta, né? “É”, disse Átila, já domesticado e amigável. Decidi arriscar: “Então, Átila, precisa mesmo esperar dois dias pra resolver minha situação? Não dá pra agendar essa troca para amanhã mesmo, por favor?” Do outro lado da linha, era possível ouvir o silêncio de mil gatos devorados. Se esta semana não tivermos crônica, saibam que eu fui mais uma vítima das invasões bárbaras. Churrasqueira elétrica: uncheck.

Ah, Daniel Craig. Daniel Larusso. Daniel na cova dos leões. Tarde demais.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Imagem meramente ilustrativa)

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