Jair Bolsonaro venceu as eleições com uma votação expressiva do público evangélico e apoio da ala conservadora da igreja católica, exibindo o lema “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, quando ainda candidato se apresentou como defensor dos valores cristãos e da família. O lema pode ser lido assim, como um chamado ao patriotismo e aos valores religiosos. Contudo, há uma alusão direta ao lema nazista “Deustschland Über Alles” (Alemanha acima de tudo), que não pode ser ignorado. A Escolha do lema não é mera coincidência. Assim como o “America First” de Trump evocou a memória do nacionalismo de extrema-direita dos Estados Unidos, o “Brasil acima de tudo” sinalizou, de tal modo, um alinhamento político-ideológico como o que há de mais agressivo e sectário no campo da direita hoje. Sim, estamos falando do ressurgimento do fascismo como força política relevante e atuante no mundo. Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Boris Johnson na Inglaterra, Matteo Salvini na Itália, Viktor Orbán na Hungria, formam um bloco disperso economicamente, mas coeso no seu modo de fazer política, o qual denominaremos aqui de novo fascismo.
Não se enganem, os neofascistas não são necessariamente as “viúvas de Hitler, que colecionam medalhinhas do Partido Nazista, com suásticas tatuadas no braço, ou possuem um pôster de Mussolini no quarto. Esses até existem, mas não influenciam tanto as pessoas quanto os novos fascistas de fato. O novo fascismo trabalha com velhas paixões, o patriotismo, a família e a religião. Dá a elas novas interpretações. Consegue transpô-las para os problemas atuais, colocando-as como uma “alternativa” aos problemas migratórios, ao aumento da desigualdade social e ao desemprego, ao mesmo tempo em que combate as pautas identitárias (cotas raciais, casamento gay, legalização do aborto). Mas, ao contrário da “Estadolatria” de antigamente, os novos fascistas parecem se acomodar muito bem ao discurso anti-Estado, defendendo ardorosamente sua redução e privatização completa da economia. Não podemos nos deixar enganar. De fato, o discurso de enfraquecimento do Estado é só uma forma para o tomar de assalto. Vejamos o exemplo de Bolsonaro, ele e seus filhos, são de algum modo, funcionários do Estado, Eduardo é um escrivão concursado da polícia, e Flávio embora se declare empresário, fez sua carreira como político. Não bastasse isso, Bolsonaro nomeou ao longo dos seus 28 anos como parlamentar, 102 pessoas com algum parentesco. No mínimo é contraditório alguém que discursa sobre o inchaço e a ineficácia, empregar tantos parentes no Estado, garantido um lugar “quentinho” para ele e, literalmente, toda família, enquanto por detrás, trabalha pelo desmonte dos serviços públicos que atende a maioria da população.
O neofascismo brasileiro incorpora as práticas autocráticas e patrimonialistas das tradicionais oligarquias que aqui se consolidaram. Bolsonaro age como se o Estado lhe pertencesse. Governa por medidas provisórias, ignora o congresso e insiste em dar o “filé mignon” para o filho Eduardo Bolsonaro. Não tem vergonha alguma em executar seu “pátrio poder” intimidando, demitindo e admitindo quem ele bem entender. A demissão do diretor do INPE é, além disso, mais uma prova do novo fascismo que se instaura na sociedade. O fascismo de antigamente se fundamentava numa pseudociência que corroborava com sua ideologia racista e higienista. Hoje as pseudociências, não buscam mais se auto afirmarem como uma ciência válida, ao contrário, se colocam abertamente como uma negativa à toda ciência consolidada, assim se colocam os terraplanistas, os anti-vacinas, os anti-aquecimento global. Eles não querem comprovar nada, apenas se ocupam em descredibilzar a Ciência, criar o caos e a insegurança. Foi por isso que Bolsonaro demitiu Ricardo Galvão, e é por isso que ele está rodeado de ministros obscuros, que não acreditam em aquecimento global, porque sentem frio, que não confiam nos dados do desmatamento, porque viram fotografias de arvores de pé na Amazônia.
Seus ministros são pessoas semi-formadas, de pouco prestígio para as pastas que assumiram. Com exceção talvez de Paulo Guedes e Marcos Pontes (casos que rendem uma boa discussão), a maioria não tem compromisso com a comunidade científica ou profissional das áreas que atuam. O ministro Weintraub é um exemplo disso. Vindo do campo da economia e da administração de empresas, não tem nenhuma intimidade com o debate educacional, busca implantar um plano empresarial, destoante do papel social e científico das Universidades públicas. Ao mesmo tempo, é desrespeitoso com a produção educacional brasileira ao desqualificar o legado de Paulo Freire, com provocações infantis nas redes sociais. Um governo minimamente sério, nunca indicaria uma pessoa com tão poucas qualificações para o cargo e com tão pouca diplomacia para lidar com a questão tão fundamental para o desenvolvimento do país, como a educação.
Por fim o fascismo de hoje une o militarismo com a religião. Não é segredo para ninguém que o fundamentalismo religioso sempre esteve ao lado de governos ditatoriais. Bolsonaro que, plagiando a ministra Damares, se apresenta como um presidente “terrivelmente” cristão, não tem nenhum pudor em defender a tortura, a ditadura e as armas como solução política para a segurança do país. A mensagem cristã do perdão e da não-violência, se transforma numa reação armada aos “pecadores”. O símbolo da “arminha com a mão”, substitui a mão estendida do acolhimento. São inúmeras as referências bíblicas sobre a vida de Cristo em que ele condena a violência e o uso das armas. Numa delas, quando um soldado romano que o levaria preso para o julgamento de Pôncio Pilatos tem sua orelha arrancada pela espada do apóstolo Pedro, que sai em defesa de seu mestre, Jesus calmamente devolve a orelha para o soldado e repreende seu discípulo, dizendo-lhe que “quem vive pela espada, morrerá pela espada”. Não bastasse o seu discurso belicoso, Bolsonaro se destaca por proferir impropérios, semear a discórdia e desrespeitar a memória dos mortos, um comportamento, acredito, destoante da mensagem cristã. Também numa outra referência em que Jesus questiona os ritos de lavar as mãos dos escribas e fariseus, pronuncia que “O que contamina o homem não é o que entra, mas o que sai da boca […] o que sai da boca, procede do coração”. Ao dizer isso, adverte sobre o que professamos, aquilo que professamos é o que temos de mais íntimo. Bolsonaro, nesses sete meses de governo, não conseguiu dizer uma palavra de conciliação e de esperança para os mais de 13 milhões de desempregados do país. Ao contrário, seu discurso tem contaminado o cotidiano com a discórdia e uma sutil vileza, que busca normatizar práticas despóticas e espúrias. Ele é a expressão mais acabada do novo fascismo brasileiro.
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Saulo Rodrigues Carvalho é professor do curso de Pedagogia na UNICENTRO, campus Guarapuava-PR e Doutor em Educação Escolar pela UNESP-Araraquara.
(Foto de capa: Reprodução/Montagem do site Carta Campinas)
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