Jaguarão – De uma hora para outra, o nosso cenário de mundo ganhou uma nova companhia. Ela costuma surgir entre o final de abril e o início de maio e, quando chega, senta e estaciona um folgado costão sobre a atmosfera que nos sustenta.
Quem pensou que falávamos da Friaca… acertou.
Foi nesse momento que ganhou vida a figura do Senhor Doc., o profissional mais procurado das margens do Rio Jaguarão para assuntos de fotografia e audiovisual.
Nos vimos, então, no centro da Cidade Heroica, diante de um digníssimo estabelecimento de biritas e lanches. Quiséramos entrar no “Meridional”, mas o letreiro insistia: “Tropical Food Bar”.
Nesta passagem até invento o proprietário dizendo, em pleno início de “friaca” de outono:
– É Tropical e digo mais: ¡Y es lo que ofrece la casa!
Mas só imagino. O comerciante amigo não é dado a rompantes.
Vale dizer que o chamamos de “Doble-chape”. Para quem é da fronteira, talvez isso não tenha nada de extraordinário. Mas para dois forasteiros – e para parte de nossos leitores – talvez mereça tradução.
Este chapa é um famoso Doble – se diz assim, inclusive. Uma dessas criaturas da linha imaginária entre Brasil e Uruguai. Gente de dois lados, ligada a Jaguarão e Río Branco, às duas culturas, às duas línguas e aos sotaques que atravessam a ponte sem pedir passaporte.
Na verdade, há muitos “dobles” nessa fronteira inventada. No fundo, como dizia o famoso escritor jaguarense Aldyr Garcia Schlee, falamos de “Uma terra só”.
O Doble – que, muito a propósito, não mora apenas em nossa imaginação – passava longe deste intertexto. Senhor Doc. e eu pedíamos a ele uma porção de fritas e um litraum de Brahma. Um minuto antes, dirigi-me retoricamente ao amigo de bebedeira:
– Skol ou Brahma?!
Só para ouvir, pela nonagésima vez:
– Skol é pura água!
Enquanto ríamos da velha piada, um prestativo Doble já providenciava a porção de fritas e o litraum pedido.
– Tropical es o carajo! Acá… esto es Meridional! – lasquei, num portunhol cochichado ao lado do Senhor Doc., que se dizia mais faminto que gaúcho depois da lida no campo.
Cronista de la Pampería
