Jaguarão – A figura de um documentarista ascende de categoria. Ganha novo status, torna-se requisitado e passa a colecionar manchetes da mídia pamperiana. Agora, vende o próprio peixe como fotógrafo e especialista do audiovisual.
O novo apelido do amigo me veio antes mesmo de pronunciá-lo. Tal como escreveu o narrador de Clarice, antes da história existe uma pré-história; antes dela, outra ainda mais antiga. E assim regressamos às nossas linhas ondulantes.
– Senhor Doc. – deixei escapar.
Não disse mais nada em voz alta. Mas pensei:
“Cara, de onde mesmo surgiu esse teu bigode ‘sul-realista’?”
Havia naquele adorno algo de pintura esquecida sobre o balcão de um bar da fronteira. Algo de relógio derretido pela madrugada. Algo de personagem que atravessou a linha tênue entre Jaguarão e um sonho etílico.
Não resisti à réplica silenciosa:
– Quem sabe esse teu bigode não tenha nascido de copões de cerveja transbordando por aí…?
Àquela altura, caminhávamos pela Avenida 27 de Janeiro, em plena noite de meio de semana. Convidei Sua Senhoria para beber umas e repassar fofocas, novidades e pequenas tragédias sentimentais da Cidade Heroica.
Era quarta-feira. E, como se obedecêssemos a um roteiro invisível, dobramos à esquerda na Rua Odilo Gonçalves e logo reaparecemos diante de uma famosa “Casa”. Talvez para conferir se nossa musa e inspiração literária estaria presente.
Não estava.
De fato, o Estação nunca é exatamente o mesmo fora das quintas-feiras. Nunca.
Senhor Doc., seu bigode à la Salvador Dalí e eu atravessamos, sem parar nem por um segundo, diante daquele sacrossanto templo de biritas, distrações e paixões platônicas.
As luzes escorriam pelas fachadas antigas do centro histórico. A noite tinha qualquer coisa de líquida e surreal, como se o pavimento derretesse lentamente sob os pés de meia dúzia de boêmios retardatários.
Depois dobramos a esquina à direita e entramos numa conhecida adega.
Ufa.
Pegamos um aperitivo com gelo e seguimos rumo a um novo destino.
Mas isso, convenhamos, talvez fique melhor em um próximo capítulo.
Cronista de la Pampería
