O gestual humano é capaz de muita coisa. Infelizmente, na maioria das vezes, de coisas inúteis. Conheci um guri na segunda série que conseguia abanar as orelhas, outro, no Ensino Médio, que dobrava o dedo mindinho até a altura do antebraço, e tenho um primo que se gaba, em todas as festas de Natal, de lamber o próprio cotovelo (sim, há males piores do que o “tio do pavê”). Em todas estas situações, fico imaginando o momento de ócio pungente em que um ser humano, ao invés de fazer como os indivíduos normais, que entram na Netflix, chamam os amigos para pescar ou reorganizam os livros por ordem alfabética, decide testar os limites do seu corpo e reparar nestes talentos ocultos. Ou você acha que alguém descobre que pode lamber o próprio cotovelo durante uma madrugada pesquisando a cura do câncer? Faça-me o favor.
No entanto, no meio desse caos de milhares de tentativas e milhões de erros, ocorre sermos capazes de inventar gestos realmente úteis para nossa vida em sociedade, ações que nos ajudam a passar por situações que, sem elas, perderiam seu prazer ou se tornariam insuportáveis. Foi assim que criamos o giro de polegares para as longas esperas nos hospitais, o som de “ahhhhh” após um gole de cerveja gelada ou o soquinho no ar depois de uma conquista pessoal. Não querendo menosprezar qualquer um desses sinais, contudo, devo dizer que, na hierarquia dos movimentos corporais, nenhum é mais importante do que a “levantadinha”. Se o nome não diz nada aos leitores, é porque acabei de inventá-lo, mas o ato que ele designa já foi executado por vocês inúmeras vezes.
Pense bem, você entra no elevador do prédio em que trabalha. Dentro dele há quatro ou cinco pessoas que você só vê em circunstâncias como essa, quando, nos horários de pico, as forças caóticas do cosmos (as mesmas que fizeram a girafa, o floco de neve e o queixo do Ron Perlman), decidem juntar meia dúzia de semidesconhecidos em uma viagem até o térreo mais próximo. Alguns instantes a seguir, depois dos cumprimentos curtos e tímidos, que mais parecem pigarros a libertar da garganta o desconforto das etiquetas laborais, cada um trata de olhar para um ponto neutro: o visor em que se projetam os números dos andares, uma sujeira na parede da esquerda, o piscar da lâmpada no teto, o clipe que alguém deixou cair no chão. Essa distância ótica é fundamental para que todos cheguem em seus destinos relaxados.
Mas, às vezes, as forças caóticas do universo (as mesmas que fazem chover nos feriados e que criaram a urtiga e o candiru), tiram todos os clipes do chão, todas as lâmpadas do teto e todas as sujidades das paredes, nos obrigando a – não tendo para onde mirar – trocar olhares com um dos nossos companheiros de descida (em horas assim, mesmo quando os elevadores sobem, descemos). Nesse ponto, em que não temos absolutamente nada para dizer ao sujeito – não podemos cumprimentá-lo novamente, nem dizer “Que calor, hein?!”, pois não está calor, ou “Poxa, que frio!”, pois estamos de bermudas e ele de sandálias – somos salvos pela prática da “levantadinha”. Ela consiste em erguer as sobrancelhas, enquanto olhamos para o outro, como quem diz telepaticamente: “É, a vida é isso aí mesmo: acordar, comer, trabalhar, dormir e, no meio tempo, dividir o elevador com estranhos.”, ou simplesmente: “Você aí. Eu aqui. Vida que segue.”.
Como não há filósofo que tenha se debruçado sobre o tema (aparentemente o Slavoj Zizek acha que Freud e Marx são assuntos mais importantes), assumo a tarefa de dar maiores detalhes sobre o fenômeno. Há pessoas, por exemplo, que juntam, ao levantar das sobrancelhas, um rápido arregalar de olhos, e existe um terceiro grupo (muito comum nas filas de banco) que contrai o lábio inferior, tensionando a boca e elevando a cabeça discretamente. Não importa. São todas variações dessa importante etapa no desenvolvimento motor da espécie humana. Desconfio de quantas calamidades esse simples deslocar do sobrolho evitou. Quantas vezes, por exemplo, após alguma reunião aborrecida da ONU, o Barack Obama teve que esperar o carro oficial ao lado de Kim Jong-un, cada um com mais vontade de lançar mísseis no cocoruto do outro, e, num instante de angustiante contemplação mútua entre os dois líderes, um deles quebrava o gelo, alçando seus supercílios em direção à manutenção da paz mundial. Mais uma crise internacional prevenida com sucesso pela “levantadinha”.
Tenho certeza, inclusive, de que aprendemos a viver em sociedade não quando inventamos a roda, dominamos o fogo ou plantamos os primeiros vegetais, mas no instante em que um nobre australopithecus, ao ver outro membro da espécie subindo pelo lado oposto da mesma árvore, conteve o impulso de rachar-lhe a cabeça com seu tacape e simplesmente alceou suas sobrancelhas em tom cordial. Daí em diante, graças a esse curinga social, incrementamos nossas habilidades cívicas e motoras para, hoje, lançarmos foguetes ao espaço e compartilharmos memes sobre o Caio Castro.
Ainda que cada comunidade tenha seu repertório típico de gestos (a curvatura dos japoneses, os três beijinhos dos russos, o mau humor dos franceses, o surubão de Noronha), a levantadinha é símbolo universal e, quando o Slavoj Zizek entra no elevador do seu prédio e cruza o olhar com um dos seus vizinhos, ele não começa uma palestra sobre “Materialismo Histórico” ou “Complexo de Édipo”. Não, o filósofo simplesmente alteia suas sobrancelhas e parte em direção à sua morada, certo de que, enquanto formos capazes de flexionar nosso sobrecenho, ainda há de existir esperança para a humanidade.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa: Imagem meramente ilustrativa)
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