Gregório nasceu sem fins de semana. Os médicos estranharam seu choro estridente e demorado ao nascer. Fizeram todos os exames necessários e, hipótese após hipótese, perceberam que não havia nada de errado com ele:
– Não é dor de ouvido – garantiu um dos médicos.
– Nem infecção – confirmou outro.
– Não há lesões nos ossos – determinou um terceiro.
– Será que ele já sabe da Vaza Jato? – indagou o quarto.
– Fala baixo que ele ainda está em formação. – pediram os outros três.
Não chegando a qualquer conclusão, mandaram a família para casa. Sua criança estava perfeitamente normal. Saudável em todos os sentidos. O choro deveria parar com o tempo. Não parou. Ninguém poderia imaginar que ele tinha nascido sem fins de semana. E, para piorar, numa segunda-feira, tadinho. Os pais só descobriram a razão por trás dos choros e do mau humor do filho no seu primeiro aniversário. Marcaram a festa na véspera, para aproveitar o domingo e juntar toda a família. Balões postos, bolo pronto, velas acesas, salgados e refrigerantes servidos, e ninguém encontrava o Gregório, que surgiu somente na segunda-feira, mais velho e, naturalmente, mais ranzinza do que nunca. O pai finalmente percebeu: – Quer dizer que o Gregório sempre some nos fins de semana? Como não tínhamos reparado nisso?
– Sei lá – disse a mãe. – Desde que ele nasceu eu não sei em que dia estamos. Era natural. O pai também passara a medir o tempo em pacotes de fraldas e potes de papinha.
Para entender aquele fenômeno, recorreram ao padre da cidade. Batizaram o Gregório, fizeram roda de oração, puseram-no na pauta de todas as missas, mas nada disso surtiu efeito. Não havia registro de nada parecido na Bíblia, o que dificultava a abordagem cristã.
– Se pelo menos o Gregório fosse paralítico ou leproso – lamentou-se o pontífice.
Uma cartomante, por sua vez, garantiu que isso era birra de ariano e que passaria se cobrissem as fraldas do Gregório com mel e hortelã. Não adiantou. Um profeta local assegurou que Cristo nunca havia dito “Mil chegará, dois mil não passará”, mas sim “Segunda passará e sábado não chegará”, se referindo a Gregório. Os pais ficaram descrentes. Esse tipo de charlatão só queria fazer grana com a moléstia do guri.
Não demorou muito para a história do Gregório aparecer em todos os jornais do país. Ficou conhecido como “O menino sem fins de semana” nas manchetes. Cientistas de todo o canto vieram estudá-lo, analisaram seu DNA, coletaram sua saliva, sua urina, suas fezes e cabelos. Alguns deram certeza de que aquilo era causado pela quantidade de agrotóxicos nas plantações, outros atribuíram à qualidade da nossa água filtrada, e teve um especialista do Mato Grosso que enlouqueceu tentando achar alguma relação entre seus desaparecimentos e o sumiço das abelhas africanas. Os pais decidiram parar de expor a criança quando um juiz de Curitiba vinculou a moléstia de Gregório à fundação do Partido dos Trabalhadores. Foi a gota d`água. Se não podiam curar ou explicar a condição do filho, que ao menos o deixassem em paz. Os médicos todos garantiam: Gregório estava perfeitamente normal. Saudável em todos os sentidos.
Assim, Gregório cresceu, com aquele exaspero e tensão de quem não conhece sábados e domingos. Sumia sempre às 11h59 de sexta-feira e reaparecia à meia noite de domingo. À mãe, restou acusar o pai:
– Essa tua genética tinha que dar nisso. Só falta o Gregório ficar careca.
O pai não deixou passar:
– Isso é culpa daquele teu avô que bebia.
A infância e adolescência de Gregório não foram fáceis. Sem passeio no parque aos sábados. Sem idas à praia aos domingos. Os amigos chegavam segunda-feira na escola, contando tudo que viveram nos dois dias anteriores, e Gregório não participava, não entendia as referências, não aprofundava as amizades. Tornou-se um adolescente fechado, intranquilo. Os pais tentavam compensá-lo. Tiravam folgas no meio da semana para passear e assistir TV ao lado dele. Soltavam pipa na quinta-feira. Juntavam a família para a churrascada de terça às 20h. Mas não era a mesma coisa. Não se come churrasco com a voz do William Bonner ao fundo.
As poucas namoradinhas que Gregório teve também não aguentaram muito tempo. Muitas não acreditavam na história dele. Sentiam-se abandonadas, traídas. As poucas que confiavam na sua palavra, logo amargavam um relacionamento sem longos passeios no shopping, sem idas ao cinema, sem ficar namorando até de madrugada, pois Gregório sempre tinha que acordar cedo. O dia seguinte era sempre útil. Quando tudo isso era tolerável, tinha aquele humor terrível.
Em compensação, nos trabalhos que teve na vida adulta, Gregório fez muito sucesso. Os patrões adoravam aquela dedicação exclusiva, aquele esforço integral, aquelas olheiras fundas. Gregório não sabia o que era descanso. Todo dia era dia de labuta. Sem fins de semana, ele nunca perdia o ritmo, não se distraía, não procrastinava. O mau humor era um preço pequeno a pagar pela sua produtividade. Logo, perceberam que não tinham que curar o Gregório, mas deixar os outros como ele. Seus colegas passaram a receber cada vez mais demandas de seus superiores. Esperava-se que fossem como Gregório e o odiavam por conta disso. A vida de Gregório tornou-se ainda mais difícil. Os empresários do país todo pressionaram o governo a mudar a legislação trabalhista do país. “Por um Brasil de Gregórios” – dizia o informe oficial do Ministério do Trabalho. Agora, ele era um símbolo empreendedor de um país desenvolvido, o que só aumentou sua solidão. Seu pai e sua mãe não tinham mais folgas graças a ele. Não podiam mais vê-lo durante a semana. Gregório chegou a pensar em suicídio, mas não encontrou espaço na agenda. Apesar disso, estava tudo bem, garantiam os médicos. Ele era perfeitamente normal. Saudável em todos os sentidos.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa: Reprodução)
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