A Enfermaria Militar que nem a Globo, nem a Unipampa, nem as ‘autoridades’ de Jaguarão mostram. Por Andriele Paiva

A cidade de Jaguarão fica localizada a 380 km de Porto Alegre, no extremo Sul do Rio Grande do Sul em fronteira com o Uruguai. A história da cidade começa em 1802, quando se instala um acampamento militar, em consequência das frequentes disputas pela região do Prata. “A Guarda do Cerrito, origem primeira da cidade de Jaguarão, foi estabelecida pelo Coronel Manoel Marques de Souza entre 4 e 10 de fevereiro de 1802, com a força aproximada de 260 homens que acabavam de participar da expedição contra Cerro Largo” (BÔAS apud. FRANCO, p. 2, 2012). Porém, por mais que a região vivesse em constantes conflitos, também prevaleceu uma relação de trocas culturais entre a população, assim como as relações comerciais do período. 

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Assim, no final do século XIX, perante ao efetivo contingente militar na cidade, fundou-se um hospital militar, mais conhecido como enfermaria militar, até hoje assim denominado pela população. Sua posição estratégica, em um dos pontos mais altos da cidade, permitia uma visão privilegiada da região, com olhos voltados principalmente para o outro lado da fronteira. O prédio possuía quartos para soldados e oficiais, capela, necrotério, farmácia, alojamento para soldados e pátio interno, e também depósito subterrâneo para mantimentos. Que segundo Bôas: “O funcionamento da enfermaria militar de Jaguarão ocorreu até o final da década de sessenta, quando houve a transferência do 13º Regimento de Cavalaria em 1970, ocasionando a desativação da função hospitalar” (BÔAS, p. 4, 2012)

Alexandre dos Santos Villas Bôas, em seu artigo A Enfermaria Militar de Jaguarão: conhecendo sua história, o autor coloca que “Alguns depoimentos orais relatam que teria funcionado no prédio uma escola primária e outros dão conta de que até mesmo serviria de prisão política, principalmente após o golpe civil-militar de 1964” (BÔAS, p. 4, 2012). Fato é que o acervo construído pela Secretaria de Estado da Cultura e o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS) mediante a diversos processos, catalogados por número de processo, nome, data de nascimento, naturalidade, profissão, vinculação política, data e local da prisão, companheiros de prisão, entre outros, captou as aparições em que as vítimas, naturais de Jaguarão e da região entraram com processo. Ao todo, foram encontrados cinco casos, dois que indicam o local da prisão e tortura na cidade: A ENFERMARIA MILITAR.

Segundo o trabalho de conclusão de curso de Alzemiro Rosa, na década de 60 e 70 houve uma política de realocação da população do Cerro da Pólvora em decorrência de programas governamentais pós Golpe Militar, que possuíam como proposta “reorganizar” bairros, geralmente periféricos e os levando a outros locais com a promessa de melhoria de estrutura e qualidade de vida. Segundo Alzemiro: “Afastando dos centros aqueles que possuíam estereótipos ditos negativos. Dessa maneira, o Governo, em forma de incentivos imobiliários, promoveu a remoção de famílias pobres de áreas consideradas “de risco”, favelas e locais periféricos com problemas de acesso à mobilidade urbana, afastando-as cada vez mais do centro com a ilusão de que estariam mais bem alocadas” (Da Rosa, 2014).

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A partir da década de 1970 o local passou por um processo de deterioração, logo se tornando as ruínas da enfermaria militar. A partir daí foi apropriado pela comunidade que se instalou no Cerro da Pólvora, considerado um importante local de sociabilização, como também de visitação para pessoas de outras cidades. Na década de 1980, ocorreram então ações referentes à educação patrimonial, período em que moradores relatam participar de shows para fomento da cultura e valorização daquele patrimônio. A partir dessa valorização do local, em 1990, houve o tombamento das ruínas da enfermaria militar como patrimônio histórico e artístico em nível estadual, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estadual (IPHAE).

Já em 2009, desenrola-se a efetivação do projeto do Centro de Interpretação do Pampa. Projeto que teve sua formulação encabeçado por instância ligadas à preservação patrimonial como o IPHAN e a gestão da Universidade Federal do Pampa. As obras iniciadas em 2011, possuem um valor global de 2.946.532,70 segundo o site do IPHAN. Já no site da Universidade Federal do Pampa consta um valor de 11.649.242,68, com 33,64% das obras executadas, tendo sido gasto até o presente momento pelo menos o triplo do valor estimado, em que a prestação de contas é um caso “nebuloso” na Unipampa e as obras continuam paradas.

Segundo a apresentação do projeto no site da Universidade a ótica no qual foi concedido o Centro de Interpretação do Pampa, seria o “modo de se viver na pampa”. (Trecho de um trabalho para a disciplina de História do Brasil Contemporâneo)

Atualmente para poder visitar o espaço é necessária autorização da reitoria da Universidade. Em 2017, na cadeira de patrimônio visitamos o CIP e tivemos a infelicidade de ver a obra entrando em processo de deterioração. Entrevistamos também algumas pessoas da comunidade pelos arredores da enfermaria para entender o que representava aquele espaço e quais as expectativas sobre o projeto de revitalização. Muitas pessoas pautaram que antes do início das obras de revitalização aquele espaço era um lugar de sociabilidade. Um dos principais problemas foi a falta de diálogo e participação de fato da comunidade, já que suas expectativas eram de que fosse um espaço educacional que a própria comunidade pudesse utilizar de forma gratuita, com biblioteca e diversos espaços de aprendizagem.

A obra com valores que ainda são uma incógnita, abriu as portas para a gravação da nova novela da rede Globo no início do ano. Hoje, a Enfermaria Militar foi vista em rede nacional, ao passo que no dia a dia os tapumes que a cercam impedem a visão e o acesso da comunidade.

Por isso, embasados na lei da transparência, devemos cobrar das autoridades e responsáveis pelo projeto uma resposta, é nosso direito, e não podemos deixar que as ruínas da antiga Enfermaria Militar virem as ruínas do Centro de Interpretação do Pampa, sem ao menos ter sido inaugurado e jogando fora o montante que até então foi investido.

Como estudantes, recebemos a promessa de utilizar o espaço para projetos e estágio, assim como a comunidade aguarda a finalização das obras para poder voltar a ter o espaço de sociabilidade que até então possuíam.

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Referências:

BÔAS, Alexandre dos Santos. A Enfermaria Militar de Jaguarão: conhecendo sua história. XI Encontro Estadual de História, Rio Grande, 2012.

BÔAS, Alexandre dos Santos. Centro de Interpretação do Pampa: a revitalização de um patrimônio Cultural. XXVII, Simpósio Nacional de História, Natal –RN, 2013.

ROSA, Alzemiro Gonçalves. A voz popular: o cerro da pólvora nas década de 1960-1970 em jaguarão-rs. Trabalho de Conclusão de Curso. Bacharelado em História. UNIPAMPA, 2014.

Brasil Arquitetura. Projeto do Centro de Interpretação do Pampa. Disponível em http://brasilarquitetura.com/projetos/centro-de-interpretacao-do-pampa Acessado em 20/05/2019.

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Andriele Paiva é estudante do curso de História da Universidade Federal do Pampa – Campus de Jaguarão; o texto de sua autoria foi originalmente publicado em página pessoal no Facebook.

(Imagem de capa: Reprodução)

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Um comentário sobre “A Enfermaria Militar que nem a Globo, nem a Unipampa, nem as ‘autoridades’ de Jaguarão mostram. Por Andriele Paiva

  1. acredito que tenha muita coisa errada no texto…esse ano fizemos uma visitação ao CIP e juntamente com o Alexandre(citado na matéria) e se falta verba é por conta do governo ter BLOQUEADO mesmo ela tendo sido liberada…a enfermaria estava se deteriorando muito antes das obras, drogas, sexo e algumas paredes prestes a cair(sem contar que já morreu uma criança que subiu e acabou caindo) eu mesmo subia várias vezes kk, enfim…uma crítica um pouco sem sal da matéria ao meu ver

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