O sanhaçu mais bonito do planeta. Por Daniel Baz

Conheci o sanhaçu numa tarde da última semana. Eu lia no quarto e a Lu preparava pipocas na cozinha. Quando dei por mim, ela me gesticulava da porta, convidando-me a segui-la, enquanto me pedia silêncio com o indicador nos lábios. Acompanhei seus passos cautelosos até a janela da cozinha, que dá para nosso pátio, e a ouvi sussurrar: “Olha que bicho lindo!”

No caule da nossa roseira, estava realmente um animal bem apessoado. Uma ave pequena, mas muito, muito bela. O que me impressionou inicialmente foi a parte superior do corpo do bicho, as asas, a cabeça e as costas, que eram de um azul raro, parecido com aquele usado por Renoir para pintar os seus guarda-chuvas. Em seguida, fiquei espantado com o alaranjado de sua barriga, tom também incomum e que me lembrou o sol num horizonte do Monet, só que com acabamento melhor.

A Lu ergueu o celular e só não foi dormir aquela noite com a ave em seu papel de parede, porque as pipocas começaram a estourar e o passarinho sumiu antes que pudéssemos dizer “Xis!”. A impressão, contudo, permaneceu. Uma rápida busca no Google deu o nome inteiro do bicho: sanhaçu papa-laranja. Contudo, nenhum dos exemplares exposto na busca por imagens da internet, em fotografias e desenhos de ornitólogos de todas as partes do país, era mais bonito do que o que estivera pousado na minha roseira. Os azuis não encantavam como o dele. Lembravam os tons opacos de um Picasso melancólico ou a água apática do David Hockney. E os laranjas, ah, os laranjas, pareciam aqueles que se veem nas embalagens descoloridas de refrigerantes. Fomos dormir aquela noite comovidos por termos conhecido o sanhaçu papa-laranja mais bonito do planeta.

Qual minha surpresa quando, alguns dias depois, ao ir à cozinha para comer uma bergamota, dei de cara com o nosso visitante empoleirado novamente entre os espinhos de uma das nossas rosas. Estaquei imediatamente. Soltei a fruta com suavidade, sem fazer movimentos bruscos para não assustá-lo. O celular não estava por perto. Ele voou antes que eu pudesse pegá-lo. Mais uma vez, fiquei sem registro do pássaro. À noite, após contar sobre a segunda aparição do sanhaçu para a Lu, decidimo-nos por uma estratégia um pouco mais assertiva. Procuramos na internet as preferências culinárias da espécie e, após abandonarmos a ideia de oferecer aranhas e insetos a ele (suas principais preferências), optamos por prender à roseira pedaços de maçã, gomos de laranja, folhas de mamão e chuchu (sim, a exuberância do bicho não correspondia ao seu paladar), confiantes de que esse tratamento VIP pudesse aumentar sua assiduidade em nosso pátio.

Não deu outra. Não mais do que um dia se passou, preparávamos a macarronada do almoço, quando a ave desceu outra vez na nossa roseira – com o cuidado e graça que não era de um voo, mas de uma levitação – e pôs-se a bicar sem pressa nossas humildes oferendas. Em menos de um minuto, o celular da Lu, que tocava Jessye Norman interpretando Wagner sobre a mesa, impregnou-se de imagens captadas em primeira mão do sanhaçu mais bonito do planeta.

E a história teria terminado aqui, eu deitaria aquela noite tranquilo, para sonhar com as maravilhas da fauna da minha terra e seguir na vida com a leveza de quem testemunha o milagre da beleza do universo, não fosse a vil natureza humana tão diferente da natureza em si. Naquela madrugada, revirei-me nos lençóis, angustiado com uma única inquietação: como seria o canto do sanhaçu mais bonito do planeta? Os leitores atentos terão reparado que, em todas aquelas vezes que dera em nossa residência, o passarinho permanecera completamente mudo. Apesar de toda pompa com a qual o recebíamos, não parecia à vontade para nos agraciar com dois ou três acordes de sua autoria.

Fui mais uma vez à internet em busca de respostas. Selecionei inúmeros vídeos do YouTube, com diversos cantos da espécie, e gostei do que ouvi. No entanto, da mesma forma que as cores do meu sanhaçu eram únicas, provavelmente seu canto seria algo também inigualável, um em um trilhão. Passei a caprichar no banquete montado em minha roseira. A ave tinha direito a primeiro desjejum, segundo desjejum, brunch, almoço, coffe break, entre inúmeros festins repletos de frutos, pipocas e favos de mel para degustação. E o bichinho vinha. Fartava-se diariamente em nosso quintal, várias vezes ao dia. Mas só abria o bico pra encher o papo. Nada mais. Eu me tornara protagonista de uma narrativa meio Rubem Braga, meio Edgar Allan Poe.

Entrei em crise. Tive ciúmes. O animal comia aqui do bom e do melhor, mas guardava seus talentos apenas para as matas fechadas, para as árvores altas, para as praças públicas. Isso se não estivesse em lugar pior. Pus-me louco a imaginar meu sanhaçu com a barriga cheia de melaço a solfejar sinfonias inteiras na casa do vizinho. Será que o vizinho oferecia aranhas ao meu sanhaçu? Aqui em casa tenho algumas debaixo dos armários, aranhas gordas, suculentas, provavelmente saborosas. Aranhas de boa safra, captoras de insetos que certamente fariam sucesso com aquela ave caprichosa.

A Lu notou que eu estava passando dos limites quando eu pus para reproduzir, no volume máximo, uma seleta de cantos de sanhaçus machos e fêmeas na nossa TV e perdi um domingo inteiro debruçado na pia da cozinha, à espera de que a ave vertesse um ou dois pius sobre a minha roseira. Forçado por ela a encarar a proporção da minha obsessão, admiti a derrota, deixei aquilo tudo de lado e quedei-me feliz de ter visto as cores do majestoso sanhaçu papa-laranja no meu quintal, mesmo que não tivesse recebido a dádiva de sua voz.

Na manhã seguinte, ele cantou.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Imagem ilustrativa)

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