Capitão, perdoe-me a sinceridade, mas não sei por que me levam assim, sem razão, sem diálogo, sem necessidade. Eu só vim lhe dizer o que comentam os marujos. Trago apenas a disposição geral, as notícias de bordo mais prementes, aquilo que os tripulantes não cessam de sussurrar entre si. Capitão, o navio não vai bem, as pessoas do navio não vão bem, as mercadorias que transportamos estão velhas e podres, e os portos se fecham quando sentem nosso fedor. Capitão, ninguém quer nos receber, não importa o destino. Há quem diga que não passamos de uma embarcação fantasma a buscar margens que nós mesmos pilhamos e queimamos.
Capitão, perdoe-me a sinceridade, mas o navio requer manutenção. É preciso trocar as velas, estender os lençóis, consertar os remos dos botes, pintar as balaustradas, limpar o armazenamento de água, o casco, a roda de proa, restaurar os cordames, substituir os anodos, reparar as hélices, ajustar os mastros, o leme, as escotas, as adriças, os parafusos da quilha; até mesmo os materiais de pesca, as redes e os arpões, precisam passar por uma revisão cuidadosa. Não podemos, como querem seus filhos, cuidar apenas dos canhões.
A propósito, capitão, é urgente educar os seus filhos. Ao menos controlar seus hábitos e ações. São desastrados, impertinentes, violentos, inconfiáveis e, o pior, arrogantes. Todos os três. Não tem honra ou gratidão. Não tem experiência marítima. Não sabem os termos técnicos do serviço. Confundem o vocabulário, se atrapalham com o jargão, não dominam o léxico. Trocam popa por proa, estibordo por bombordo, erram os nomes das funções, não têm noção de hierarquia, o que poderia ser remediado, caso eles fossem capazes de conviver e aprender. No entanto, seus filhos, capitão, caluniam os práticos, melindram o contramestre, hostilizam os cabos, não saúdam os sargentos e, principalmente, não têm nenhuma consideração pelos marinheiros.
Capitão, perdoe-me a sinceridade, mas são os marinheiros que mantêm este navio flutuando. Quando há mudanças de rota, são eles que alteram sua rotina integralmente. Trabalham em horários diferentes, trocam turnos entre si, acumulam funções e nos colocam de volta ao rumo antigo ou, se preciso, em direção ao novo destino. Quando é noite de tempestade, são eles que as sentem primeiro. Reorganizam-se antes mesmo que os pássaros percebam a alteração climática e, quando da cabine de comando, ouvimos rugir o primeiro trovão longínquo, já não é necessário que se faça nada, pois os nossos marujos preveniram quaisquer danos ao navio. Capitão, são eles que sentem o sol e a chuva, são em seus olhos que boiam as estrelas antes de nos mostrar a direção.
Quando falta comida, capitão, e não tem sido raro, são os marinheiros que nos salvam da fome. Reduzimos, de três para duas, as fatias de pão em seus pratos; de duas para uma, as porções de batatas; aumentamos, de semanal para mensal, os seus brindes com rum; escondemos as suas cervejas e, se é necessário que fiquem em jejum, ou a pequenos goles de água por horas a fio, até que as redes e os anzóis reabasteçam completamente o navio, nenhuma palavra de desagrado ou desacato sai de suas bocas.
Mas esta obediência não dura para sempre, capitão. É importante pôr novamente os camarões e os lagostins na ponta de seus garfos, deixar que brinquem ao fim do dia, que cantem alto pela madrugada e metam as mãos duras e sujas nos violões, para que esqueçam, por algumas horas, a rigidez dos mastros e a ardência do sol. Um homem só pode ser escravo de si mesmo, capitão. Temos que permitir a eles algumas doses de liberdade. Deixar ao menos que observem os pássaros e os cardumes sem pressa, que folguem com mais frequência pelos paióis, que descansem pela meia-nau, que passeiem em grupos com os botes, que se amem sem tabus e deixem-se cair depois, pendidos, exaustos de prazer, empoleirados nas vergas.
Capitão, perdoe-me a sinceridade, mas temos que estabelecer boas relações com os navios com o quais cruzamos. Não aguentamos um dia a mais de hostilidade. Muito menos de guerra. Nossos melhores soldados já não são mais os mesmos. Muitos sequer lembram das vitórias passadas. Capitão, nossos heróis estão velhos ou mortos. Capitão, nossos heróis não têm capa, dinheiro ou espada. Não voam nem usam máscara. Não vencem nem galanteiam. A bem da verdade, capitão, nossos heróis não têm nada. Mendigam pelo convés, atrapalhando o trabalho de todos. Capitão, os nossos heróis cheiram mal. Estão cobertos de varíola, disenteria e escorbuto. São raquíticos, epiléticos, sifilíticos. Capitão, nossos heróis têm as mãos calosas de pedir misericórdia e ultimamente deram pra cair de joelhos a todo instante. Não sabemos se estão bêbados, anêmicos, ou apenas aprenderam a rezar.
Capitão, não há aqui quem tenha no corpo a largura para tanto trabalho. Não há gesto que suporte esse peso todo, esse sofrimento. Capitão, só nos resta o mar. O mar é o único sentimento que nosso corpo não vomita, o único entendimento que nossa cabeça não desconfia, a única matéria não entrevada da memória. Mas o mar, capitão, o senhor me perdoe, nós não o merecemos. Se não podemos manter um mísero navio, que faremos com essa água toda? Por isso, capitão, se estou sendo levado para que me ameacem, para sentir medo e pedir desculpas ou apresentar explicações, sinto dizer que prefiro ser lançado ao oceano. Nenhum homem é tão pouco que não dê em alguma costa. Nenhuma vida é tão grande que não seja também naufrágio. Nenhuma morte é tão pequena que não seja desembarque.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa: Ilustração/Reprodução)
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