A criança que dança. Por Daniel Baz

Todos estão compenetrados com seus blocos de anotação na mão e o olhar concentrado no palestrante. Não tenho ido a muitos eventos acadêmicos e, neste, caí de paraquedas. Trata-se de um simpósio amplo, frequentado por sociólogos, historiadores e críticos literários. Estou aqui por conta dos convites insistentes de um amigo ansioso por companhia. Mais de trinta minutos se passaram, e eu ainda não sei se o sujeito lá na frente está falando de algum capítulo do “Raízes do Brasil”, do último tweet da Damares, ou do uso dos pronomes pessoais oblíquos na obra do Carlos Drummond de Andrade. Antes que pensem que sou um daqueles espectadores negligentes, que vai aos eventos apenas para comer e rir no coffee break ou criar jogos intransigentes como “Toda vez que alguém falar ‘Derrida’, eu como um Halls” (sucesso dez anos atrás em um seminário da FURG), apresso em me defender. Estou completamente desatento por um bom motivo. Só tenho olhos para a criança.

Duas fileiras de cadeiras à minha frente, um pai segura a filha de aproximadamente quatro anos com as duas mãos. O sujeito está firme, trava os movimentos da guriazinha sem violência, mas com muita cautela, resistindo bravamente aos golpes que os braços e pernas da menina tentam aplicar em si para fugir. Meia hora atrás, quando o apresentador do evento introduziu-nos o palestrante, dizendo seu nome, sua formação acadêmica e suas principais obras publicadas, em uma ladainha que parecia introduzir uma personagem de “O senhor dos anéis”, a pequena saiu correndo para frente do palco e começou a gritar frases desconexas e aparentemente sem sentido, como se o elenco da Peppa Pig decidisse se comunicar por intermédio da novilíngua de “1984”. Em outras palavras, ela discursava como se estivesse em um filme do David Lynch, caso existissem crianças nos filmes do David Lynch.

O atrevimento da guria causou graça em alguns e aborrecimento em outros. Estes últimos pareciam convictos de que um lugar onde se citam Durkheim, Walter Benjamin e Derrida (eu poderia ter uma overdose de Halls neste evento!) não é espaço adequado para uma criaturinha anárquica como aquela e sua espontaneidade festiva, típica de quem nunca atualizou um currículo Lattes na vida. Pois eu não poderia discordar mais dessas pessoas. Defendo, inclusive, que é justamente em ambientes como esse, superformais, que a presença das crianças se torna fundamental.

Não faz muito tempo, eu estava esperando minha vez em um consultório de dentista, quando uma mulher chegou acompanhada de um molequinho de não mais do que cinco anos. O gurizote até aguentou uns bom dez minutos, sentado ao lado de sua mãe, com as mãos entre as pernas, que balançavam cada vez mais velozes, enquanto fitava os adultos ao seu redor. Mas, assim que a mulher se distraiu com uma revista Caras antiga, ele aproveitou a oportunidade e cruzou a sala de espera com velocidade e pequenos guinchos de felicidade em direção à estante repleta de próteses decorativas, desejoso de vê-las mais de perto.

Naquela sala cheia de molares doídos e de gengivas fragilizadas, foram muitos os que sorriram timidamente durante o rompante do menino, ainda que alguns tenham rangido seus caninos recém-obturados em reprovação à barulheira abrupta produzida por ele. Indiferente aos ranzinzas, a criança se deixou capturar pela mãe sem oferecer maiores resistências. A formalidade do recinto, no entanto, já se dissipara. Tínhamos sido, uma vez mais, confrontados com esta urgência que é estar vivo. Logo, a secretária chamou o nome do menino e ele cruzou a sala novamente, agora com a serenidade de quem ainda tem todos os dentes de leite para perder. Nós, adultos, olhamo-nos com gravidade. Fosse nos dada a chance, também sairíamos correndo em direção à estante mais próxima, em ordem de catar uma prótese para pôr no lugar daquilo que perdemos.

Mas, de todas essas manifestações infantis, a que mais gosto de encontrar nos lugares públicos (especialmente nos cerimoniais) não é a criança falante como a primeira, nem a arteira como a segunda. Sou fascinado por um terceiro tipo, essencialmente dissidente e subversivo: a criança que dança. Estive recentemente em uma solenidade ligada ao mundo das Letras, na qual se executou o Hino Nacional. Estavam ali dezenas de pessoas tentando lembrar o que vinha antes de “lábaro” e o que poderia rimar com “flâmula”, mantendo o mínimo de civilidade, quando uma menina ainda em fraldas apareceu diante da bandeira brasileira e requebrou seu diminuto esqueleto como se “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos” e “Fulguras, ó Brasil, florão da América” fossem versos do Mc Kevinho. O mais curioso é que, até o fim da execução do hino, ninguém apareceu para interrompê-la ou devolvê-la a seu lugar. Depois que soou o último acorde grandiloquente, voltamos a nossas posições de descanso, e, somente então, alguém tratou de pôr a bailarina rebelde novamente no colo. Percebem o que aconteceu? Nenhuma autoridade daquele recinto cheio de escritores imortais, figuras políticas e autoridades de todo tipo teve a audácia de impedir uma criança de dançar. Esse é um limite ético sólido, ninguém quer ser o responsável por bloquear a vida em sua forma mais pura, bruta, crua. Em um mundo no qual vivem pessoas especialistas em Excel, indivíduos que gostam de jiló e sujeitos que falam “sine qua non”, eu desejo que todo lugar possa ser salvo por uma criança que dança. O único universo sem crianças que funciona é o dos filmes do David Lynch. Mas, neles, ninguém é obrigado a cantar o Hino Nacional.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Ilustração/Reprodução)

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