Não poderia ser eu. Por Daniel Baz

Poderia ser eu o psicótico dentro do ônibus, com garrafas PET cheias de gasolina, uma caixa de fósforos no bolso, uma arma de brinquedo na mão e um ódio de verdade na boca. Poderia ser eu esse marginal, a babar palavrões aos passageiros assustados e a ameaçar de morte seus entes mais queridos. Poderia ser eu o criminoso que surta e decide queimar os bancos dos coletivos como quem acredita estar à altura dos incêndios e põe-se a quebrar os vidros e tira o casaco e pensa na mãe e sente uma grossa variz latejar na perna esquerda e lembra o perfume barato do pai e sente a bala atingir sua cabeça e esquece o apelido de infância e balança e perdoa e cai e morre sob a manhã triunfante.

Poderia ser eu esse sujeito que acorda às 4h e toma café às 4h15 e toma banho às 4h30 e sai de casa às 5h e pega o ônibus às 5h10 e dá ao cobrador a única nota de R$ 20 de seu bolso e que recebe de volta uma nota de R$ 10 e que senta com calma em algum banco dos fundos e, às 5h30 em ponto, acorda. Poderia ser eu esse homem que desperta às 5h30 em ponto e tenta se equilibrar sobre todas as coisas já nomeadas, sabendo que nenhuma delas pode exprimir aquilo tudo que tem vivido.

Poderia ser eu o guri magro, de pernas finas e bermudas frouxas, que se move por entre as pessoas com a tranquilidade de quem sabe não ser visto, pois a invisibilidade é a única herança deixada por seus pais, um atavismo passado de silêncio a silêncio, de escuro em escuro. Poderia ser eu esse delinquente que não acredita em anjos nem demônios, nem em cartomantes, nem em videntes. Que não acredita que os sonhos signifiquem algo ou que as letras, quando postas em certa ordem, podem nos salvar. Que aprendeu cedo que não se pode confiar no que não produz, passado certo tempo, algum tipo de fedor. Poderia ser eu o pivete que pensa haver em toda crença uma forma de nos distrair do chão, de nos esconder o fenômeno telúrico que é estar vivo e que acredita que envelhecer é uma armadilha, um jeito de separar a cabeça dos pés, nos distanciar definitivamente do solo, até que não consigamos mais regressar e desapareçamos para sempre.

Poderia ser eu o trombadinha que tem nos olhos o opaco dos brinquedos de camelô e nos braços a elasticidade da sorte e que se lança contra corpos duas vezes maiores que o seu e agarra a bolsa como se a salvasse de um desastre e desaparece no tumulto de dúvidas e indignação que embaça o horizonte urbano. Poderia ser eu essa criança que não come há dezoito horas e observa tudo pelo grau da fome e fala pouco, pois as palavras são a única vitamina que lhe resta, a única proteína com que pode ocupar os dentes pulsantes de medo e força e vingança.

Poderia ser eu o indivíduo que vai na garupa da motocicleta e vê a sociedade como um vulto apressado, um entulho de oportunidades para seus olhos e mãos. E que não sabe fazer poemas, nem tocar violão, nem cozinhar vegetais, mas memorizou o teorema de Parmênides, marcou três gols na final do campeonato municipal e sabe todas as músicas do Sabotage de cor. Poderia ser eu o vagabundo sem capacete que ri ao tomar o celular do operário que espera o ônibus às 5h da manhã e que também poderia ser eu.

Poderia ser eu o bandido que escapa impune, ileso, intacto – como escapam todas as sombras que apertam os botões vermelhos do mundo: o botão da bomba atômica, o botão da radiação, o botão do gás, o botão do desvio de verba, o botão da propina e da desnutrição, o botão dos agrotóxicos e das queimadas, o botão 1 e o botão 7 – e mal sabe que não inventaram ainda botões suficientes para a crueldade humana, para o autoritarismo, para a ganância e para a desconsideração.

Poderia ser eu o resultado de infinitas microdecisões que escoam em direção ao crime e à ilegalidade, do tapa do pai ao choro do filho, do canto da mãe aos abortos da avó, da má distribuição de renda ao sucateamento da educação pública, do extermínio dos índios ao silenciamento dos negros, dos conflitos de classe aos detectores de metais, das fossas a céu aberto ao ódio às mulheres.

Eu só não poderia ser esse homem que desce do helicóptero e gira um braço mais mortal que a hélice. E que desce tão baixo que já não o podemos ver, mas vemos, que já não o podemos ouvir, mas ouvimos, e que considera a morte uma limpeza eufórica e que comemora a morte e abraça quem comemora a morte, e lambe as botas de quem apertou os gatilhos e beija o fuzil com a cova rasa da boca. Não, eu não poderia ser o homem que soca o ar com alegria e vibra sobre a ponte e enlaça seres necrófilos e finge não perceber que, por não sabermos mais gritar “Bravo!”, por não podermos mais gritar “Gol!”, por não tentarmos mais gritar “Viva!”, passamos então a gralhar como corvos, a gargalhar como hienas, a cumprir, em idioma e gesto perversos, a exumação do pouco que nos resta.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Créditos de Fabiano Rocha / Agência O GLOBO)

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