O banquete. Por Daniel Baz

Todo ano os gêneros literários se reúnem para celebrar sua sobrevivência. O grupo já tinha perdido um pouco as forças com a Ópera, mais ainda com o Cinema e com a História em Quadrinhos. A Televisão colocou muitos deles na UTI e, em tempos de Netflix, de livros para colorir e de reality shows, estava cada vez mais complicado resistir por mais quatro estações. A morte parecia iminente, o que, com exceção das Elegias, arrepiava a todos. Como costume, a Poesia foi a primeira a chegar no salão, com seus inúmeros filhos, dos quais o Soneto parecia meio tenso, apreensivo com o horário e com as normas do cerimonial, meio apertado em roupas de ocasião, porém cativante e de voz belíssima. Ao lado do Hino, da Écloga, do Idílio, vinha a polêmica Sátira com o pequeno Haikai no colo.

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Em seguida, chegavam os gêneros teatrais, que entravam somente depois de anunciados, cuidando obsessivamente o lugar em que pisavam. Ocupavam seus assentos, abrindo as jaquetas e pendurando os casacos de forma histriônica, reclamando do clima, qual fosse ele, falando muito alto, com gestos exagerados e caretas de agonia. Frequentemente punham em discussão o ambiente onde faziam a celebração, a má iluminação, a austeridade das paredes, o mau gosto da mobília, etc. Alguns instantes depois, já estavam criando questões sobre a natureza da cerimônia, pedindo que alguém fizesse algum sacrifício e arrumasse um espaço melhor para o próximo ano.

Honrando a tradição, o Romance, patriarca das prosas, chegava atrasado, colocando, como sempre, a culpa na Epopeia, que deveria ter esquecido os remédios, a bengala, o aparelho de audição. Ou então responsabilizava o Conto, sempre apressado, querendo terminar logo com a noite, e que, em sua afobação, fazia o Romance esquecer as chaves, os sapatos, os óculos de grau recém-aumentados. Ao cumprimentar os convivas, o Romance costumava levar mais tempo do que o necessário, emendando um assunto no outro, introduzindo situações sem aparente relação com a proposição inicial. Enquanto cada gênero assumia sua posição no salão, podiam notar que o linguajar do Romance, que nunca foi lá essas coisas, tinha piorado ainda mais, posto que ele ainda misturava expressões populares com termos em latim e vinha agora com essa mania, aprendida de uns tempos pra cá, de refletir sobre a natureza de tudo que dizia. Sentou na cabeceira, pois era o único com condições de bancar o banquete.

Antes do fim das digressões do Romance, o Teatro Moderno, o Teatro Grego, e a Poesia Lírica sentaram para acompanhá-lo na mesa principal e maior.  Em uma mesa menor, ficaram a Novela, a Fábula, a Ficção Científica, entre outros gêneros de diminuta expressão e, aparentemente, com menos assunto e apetite. Contudo, todos se divertiam debochando dos outros gêneros textuais que sequer eram convidados para o jantar. Zombavam da falta de imaginação das notícias de jornal; troçavam da subserviência das receitas de cozinha; escarneciam do engajamento dos bilhetes de geladeira; sem falar nos barbarismos dos textões de Facebook e na ausência de cultura livresca nos tweets e nas descrições de fotos no Instagram.

Não demorava muito, contudo, influenciados pelo bom vinho trazido pela Novela Romana, começavam a maldizer uns aos outros. A Comédia caçoava dos botões dourados nas mangas da Utopia, o Romance de Tese argumentava acerca do fim da era bibliófila e citava estudos atualizados sobre Taine. A Autobiografia chateava o Romance Proletário, pois só falava de si, de como estava um pouco cansada de tudo, mas, agora, com novo fôlego, tinha ingressado na universidade, o que lhe dava um ar de esnobismo diante do interlocutor e do Romance de Cordel, que ouvia tudo mastigando aperitivos de boca aberta.

Logo, a Ode passou a erguer a taça, propondo brindes aos tópicos que julgasse necessários (quase todos) e só ficou um pouco desanimada quando veio à tona o último Nobel de literatura.

Silêncio na mesa.

Foi o que disse o Teatro de Revista.

O Romance de não-ficção observava tudo em silêncio, pois só há algumas décadas frequentava as reuniões, quando, ao seu lado, a Sátira decidiu se manifestar, alegando que aquele cerimonial era ridículo e que aqueles encontros estavam mais para paródias. A Paródia discordou. O Romance, interessado nos grandes temas, defendeu que aquilo era absurdo e que, ao menos ele, tinha resistido a todas as mortes decretadas. “Como assim?”, gritou o Diálogo Socrático do lado de fora de alguma janela, o que precipitou a confusão por toda a sala. Os gêneros literários discutiam aos atropelos quais deles sobreviveriam aos novos tempos.

“Vocês têm muito o que aprender” – disse o Romance de Formação. “Não há futuro para nenhum de nós”, reagiu o Romance Distópico. “Eu passarinho”, apelou o Poema Modernista. “Resolveremos isso em um duelo”, bradou o Romance de Cavalaria. “As maçãs e o canivete”, exemplificou o Poema Dadaísta. O Soneto esperava para fechar a disputa com chave de ouro, quando o Romance Policial proferiu: “A culpa é do mordomo”. Nesse momento, sem poder ignorar o espasmo do amigo popular, todos se voltaram para a Crônica, que, de avental, servia quitutes aos convidados e ainda não aprontara o prato principal. Os gêneros literários sempre a olharam de soslaio, desconfiados de sua preferência pela página de jornal e por sua falta de critério, sendo meio notícia, meio causo, mas, às vezes, ambicionando a poesia. Era volúvel. Imprevisível. Dirigindo-se a ela, o miniconto resumiu a dúvida dos demais:

 “E você, o que acha disso tudo?”

Ao que a crônica respondeu: “Estou imaginando quem de nós vai conseguir contar essa história.”

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Ilustração/Reprodução)

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