Desculpa, Milton. Por Daniel Baz

A você que chegou nesta crônica decidido a dedicar um pouco do seu tempo à sua leitura, devo dizer que, caso você não se chame Milton Cruz, passe bem e volte na semana que vem. Se você não atende pelo nome citado, mas, mesmo assim, decidiu ignorar meu aviso e está lendo esta frase, comunico que hoje esta crônica tem endereço certo e se dirige a um único leitor, o Milton. Não, eu não conheço o Milton, não sei sequer se ele lê o “Diarios de la pampería” ou se tem interesse pelos cronistas do interior. O que sei, Milton, e a partir de agora falarei diretamente contigo, é que acabo de ler tua mensagem em meu Facebook. O problema é que estamos em 23 de agosto de 2019 e ela foi enviada no dia 4 de julho de 2016. Por isso, fique este texto em honra do teu nome e em forma das minhas desculpas.

Em uma escrita objetiva, enxuta e segura, Milton, tu querias contratar meus serviços de revisor de texto, bico que me ajudou a pagar muitas contas até o início de 2017, quando parei de exercê-lo (quem lê estas crônicas deve desconfiar do motivo). Segundo tua mensagem, estavas próximo da defesa de tua dissertação e precisavas de alguém que passasse o pente fino derradeiro no teu texto, além de uma ajuda com as formatações exigidas pelas normas acadêmicas. Ou seja, em um momento no qual precisavas de apoio e de interlocução confiável, recebeste de mim apenas o silêncio e a indiferença. Mas não é pessoal, Milton, eu juro. Não fiz isso apenas contigo.

Assim que li teu pedido, percebi inúmeras mensagens que pairavam no limbo do meu Messenger. Em agosto de 2016, por exemplo, Milton, uma tal de Julia perguntava se eu queria conhecer a nova página de Amigurumi que ela inaugurara. Quer dizer, nova naquela época, há dois anos, pois, como pude atestar com um clique, ela já não é atualizada há meses, deixando um cemitério de personagens de crochê e pedidos de clientes sem resposta. Vai saber para qual nova moda japonesa migrou a Julia neste ano de 2019, Milton. Nunca saberei, pois ela jamais me enviará convites.

Em novembro do mesmo ano, Milton, um tal de Sullivan perguntava, em um inglês corretíssimo, se eu tinha interesse no curso de escrita criativa que ele estava desenvolvendo com amigos escritores. A ideia era, depois de estudar com afinco as categorias da narrativa em prosa, preparar um livro para cada participante até o início de 2017. Veja você, Milton, tanta gente querendo publicar o livro próprio e eu deixando o bom Sullivan no vácuo, como se tivesse a bibliografia do Luis Fernando Verissimo. O Sullivan pode hoje ter um Pulitzer na estante, Milton. E eu mal aprendi a escrever na segunda pessoa.

Em 2017, um sujeito de nome Rafael me procurou para ter aulas de redação para o Enem. Segundo ele, um amigo indicou o meu nome, Milton. Imagina a decepção do cara, que ainda insistiu, depois de não receber resposta de minha parte, com várias mensagens seguidas, terminando por escrever linhas e linhas com apenas pontos de interrogação e de exclamação indignados, Milton. Imagina se ele fez a mesma coisa no Enem, Milton. Ele deve ter posto ponto de exclamação até no título, Milton!!!!

Mas nenhuma dessas pessoas conseguiu me fazer parar de pensar em ti. Tu, o possível mestre. Tu, que não eras fluente em ABNT. Imagina se aprendeste as regras dela por conta própria, Milton, e por minha causa, Milton. Isso mirra a vida de qualquer um. Além disso, que concursos podes ter perdido por não teres defendido a dissertação? Que aumentos salariais devem ter te negado? Será que esculhambaram tua ortografia? Será que eu estraguei tua vida, Miltinho? Seria a primeira vez que um revisor estraga a vida dos outros por não fazer o seu trabalho, mas para tudo tem uma primeira vez, não é mesmo, Miltão? Por que fui deixar teu contato perdido como uma garrafa lançada ao mar, repleta de furos?

Pois, corroído pela culpa e pelo arrependimento, decidi te procurar nas redes sociais, Milton, e, aí, meu mundo finalmente se recompôs. Pude te ver na praia, curtindo a vida com teus filhos, fazendo castelinhos de areia, tomando banho de mar. Entrei naquele álbum intitulado “Aqua Park” e te surpreendi no tobogã, em piscinas de bolinhas, em boias imensas, entre outras sucursais de Pasárgada. Pude observar teu casamento (eras noivo quando me escreveste, Milton?), vi as tuas festas de aniversário, teus Natais e Réveillons. Era uma vida, enfim, revisada.

Uma pena não termos nos conhecido, Milton. Talvez pudéssemos até ter sido amigos. Quem sabe não teríamos aprendido a fazer Amigurumi juntos? Às vezes, o talento para o crochê figurativo só precisa de um empurrãozinho e de uma parceria. Será que nos consagraríamos no curso do Sullivan e, hoje, teríamos na estante um Jabuti adquirido a quatro mãos? Nunca saberemos. Você segue aí na sua vida de tobogãs e castelinhos de areia, alheio ao meu mundo de crônicas e garrafas furadas ao mar. Se esta chegar até ti, Milton, espero que te encontre ainda melhor. Ah, e manda saudações minhas ao sujeito que teve a honra de revisar tua dissertação. Caso ele se interesse por literatura, conheço um cronista de Rio Grande que está precisando dos seus serviços. Forte abraço!

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Ilustração/Reprodução)

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