Vamos desmarcar? Por Daniel Baz

Por causa de um grande amor, Elizabeth Bishop, uma das maiores escritoras norte-americanas do século XX, viveu em Ouro Preto de 1951 a 1974. Suas impressões sobre o Brasil constam em cartas que endereçou aos amigos ao longo dos anos e que explicam alguns hábitos e tipos de nossa realidade, a exemplo do Carnaval, do futebol e dos poetas que tiram foto descansando em redes. Contudo, o trecho que mais me marcou nas várias anotações da escritora é aquele na qual ela mostra seu espanto (e admiração) diante de nossa língua, mais objetivamente, de um de nossos mais prosaicos verbos, como fica claro em suas próprias palavras:

“Outro verbo muito bom e humano que faz falta no inglês – quando você quer pular fora de um compromisso ou desconvidar-se: desmarcar.”

Desmarcar, de fato, em todas suas derivações, sufixais, prefixais e asfixiais, é um dos principais hábitos do brasileiro, ao lado da cervejinha de sexta e do stand-up ruim. A palavra era desconhecida do lírico léxico de Bishop e, realmente, é um dos frutos da nossa cor local, como o tico-tico, a caipirinha e os 15 minutos de tolerância. O hábito começa, no entanto, num impensável ímpeto para arranjar (eu diria obcessivamente) compromissos que jamais poderão ser honrados. Ou seja, antes de gozarmos dos prazeres de desmarcar, nós, os brasileiros, aproveitamos a fruição, quase estética, de marcar.

Você encontra aquele amigão do colégio, mas que não vê há pelo menos há uns dez anos. Nem no Facebook vocês trocam curtidas. Mesmo assim, nos “deus ex machina” que a vida apronta, vocês se encontram na fila do caixa eletrônico. Papo vai, papo vem, naquele frouxo interesse em confirmar que a Márcia casou, que o Fabiano morreu atropelado, que o Gilberto deixou de beber e não está mais com a Ana, atualizações que entretêm durante uns bons cinco minutos, infelizmente insuficientes, já que a fila insiste em não andar. As bocas, antes ocupadas em mastigar núpcias e óbitos dos conhecidos, agora pendem desencorajadas sobre o amarelo acovardado dos dentes.

Você repara em uma irregularidade no piso, em uma fissura larga no teto. Sente um papel amassado dentro do bolso esquerdo. O seu amigo deve estar pensando por que não paquerou a Márcia, não chamou o Gilberto para uma saideira nem mandou os pêsames para os filhos do Fabiano, quando, graças aos céus, chega a sua vez de usar o caixa. É nessa hora que séculos de cordialidade, do jogo de cintura que tivemos primeiro com os índios, depois com os portugueses e, hoje em dia, com os superiores no trabalho, com os credores, com as testemunhas de Jeová, com os 40 graus que nos dissolvem a pele, enfim todos os elementos psicotropicais que fazem do brasileiro um espécime único, fazem você bradar, rugindo em mil margens do Ipiranga: “Vamos marcar alguma coisa. Um churrascão, quem sabe?”. “Claro”, responde o amigo que não tem seu telefone, muito menos sem endereço, não sabe seu sobrenome e tenta lembrar se seu nome é Matheus, como agá, ou só Mateus mesmo. Você se chama Pedro.

O problema dessa generosidade em inventar encontros jamais desejados é evidente, pois nos mete frequentemente em convívios nos quais não gostaríamos de ingressar. No meio da rua, na troca rápida de palavras, é comum estarmos dispostos a imoderados festins que envergonhariam Baco e Dionísio e fariam as bodas de um Corleone parecer um arroz com ovo no bandejão da esquina. Honrar essa pompa toda, aí é outra história.

A ciência um dia descobrirá que tirar o pijama e pôr a roupa para sair de casa, em direção a um compromisso que nunca deveria ter sido assumido, é tão exaustivo quanto 20 horas de caminhada, dez horas levantando laje, ou dez minutos tentando abrir um pote de cebola em conserva da CBS. É anti-humano, é contraproducente e, provavelmente, contém glúten. Uma vez em casa, cobertos pelo conforto do lar, temperados com a agradável textura daquela meia furada, protegidos pela incomparável praticidade do cabelo despenteado, qualquer futevôlei na quadra do quartel, qualquer pagode com os amigos, qualquer futebol na televisão do Cláudio, qualquer despedida de solteiro torna-se tão animada e festiva quanto um documentário iraniano. Desmarcar é música para os ouvidos nessas horas agudas. Equipado com um arsenal de desculpas, começam os e-mails, os telefonemas, as mensagens no Whats, e dá-lhe matar tios, eliminar primos, comprometer órgãos como o estômago e o fígado, tudo para salvar-se de si mesmo, da armadilha que o ingrato você do passado armou com tanta presteza. Mas, enfim, acabou, graças a nossa sutileza lexical. Desmarcar. Verbo “muito bom e humano”, como disse a sábia Elizabeth Bishop. Mal poderia imaginar que assim ainda passamos os dias, humanamente imperfeitos, empenhando nossa palavra em qualquer esquina para, depois, agradecermos à fecunda língua portuguesa de ter nos dado uma saída para nossa irresponsabilidade, um novo paradigma para desconstruir os boicotes cotidianos que a irreflexão e a boa vontade vivem organizando para nós.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Ilustração/Reprodução)

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