Eu deveria ter ido embora quando vi o urso polar. Por Daniel Baz

Está no título. Eu deveria ter ido embora quando vi o urso polar. Dar de cara com um animal desses seria natural se eu estivesse na Groenlândia ou no Alasca, mas encontrá-lo na seção de travesseiros de uma loja varejista no centro de Rio Grande era razão mais do que suficiente para que eu abandonasse o local e usasse o resto do meu dia para algo de mais valia. Se não o fiz, foi em consideração à Lu, que estava decidida a trocar os itens da nossa roupa de cama por outros mais confortáveis. E eu, que pensei que o passeio envolveria não mais do que trinta minutos apalpando preenchimentos e sentindo texturas, e julguei que não veria nada mais estranho do que as fronhas com desenhos de cogumelos que uma tia minha usava, fitava agora um mamífero de grande porte que deveria estar no ártico.

O animal estava estampado na embalagem de um travesseiro que, além da espuma e do látex costumeiros, era preenchido também com uma espécie de gel, cuja função seria esfriar nossa cabeçorra cheia de problemas nas noites de sono. Suponho que o idealizador da imagem, desejoso de passar aos consumidores a sensação de frescor que envolveria nossa moleira durante a utilização do produto, decidiu optar pela sutileza e tascou a tal foto da fera, captada durante um relaxado passeio em alguma geleira do Polo Norte. “Se o animal serve de modelo para as propagandas de Natal da Coca-Cola, por que não?” – deve ter pensando o mais novo desempregado do ramo publicitário. Enquanto eu continuava espantado com a presença do bicho naquele utensílio tão distante das calotas e dos icebergs, a Lu, que sempre se excita em frente a novidades como essa, já comparava as vantagens dos objetos, explanando-as em voz alta: um afirmava possuir o revolucionário sistema FrostyGel, outro apresentava o inovador Visco Block Base System, alguns gabavam-se de sua malharia hiperdensa e todos garantiam conter tecnologia desenvolvida pela Nasa.

Fiquei atônito. Em que momento da história da civilização o travesseiro deixou de ser um item com a simples função de suportar nossa nuca e nossos sonhos e se tornou essa traquitana com a empáfia tecnológica de um projeto do Elon Musk. Talvez na mesma época em que desenvolvemos um pau para tirar selfies, ou antes, quando criamos um relógio que dizia as horas com a voz do Silvio Santos. Não sei. É impossível precisar quando adquirimos essa propensão incontrolável para o supérfluo. Só não podemos deixar de indagar o que faz um sujeito pensar que, para ficar em casa comendo Cup Noodles e vendo reprise de “Grey`s Anatomy”, precisa do mesmo suporte tecnológico do Neil Armstrong.

Aliás, eu nunca entendi esse fetiche pelos produtos construídos com tecnologia da Nasa. Lembro da obsessão que marcou o final da década de 80 e início da de 90 (imortalizada em um episódio de “Seinfeld”), quando o sonho consumista dos indivíduos da classe média era adquirir as canetas utilizadas pelos astronautas, objetos que, segundo os boatos, possibilitavam o feito incrível de escrever de cabeça para baixo.  Eu não conheço os hábitos dos escritores pelo mundo, mas não costumo procurar a postura adequada para redigir meus textos no Kama Sutra. Juro que grafo cada uma dessas palavras do jeito tradicional, sentadinho em uma cadeira, com papel ou notebook diante de mim, uma espécie de “papai e mamãe” dos cronistas. Qualquer utensílio que escreva normalmente, de cima para baixo, supre todas minhas necessidades, e tenho certeza de que faz o mesmo pelos poetas e romancistas ao redor do planeta. Mesmo assim, a caneta foi febre.

Outro fator que não me convence nessa fixação com a tecnologia espacial é de caráter estatístico. Experimente digitar a palavra “Nasa” no Google e clicar em “vídeos”. Só dá foguete explodindo. Comprar um travesseiro desses pode transformar qualquer inofensivo e seguro quarto de hotel em uma sucursal da Apollo 1. Isso sem falar nos riscos ecológicos e humanitários que envolvem cada novo empreendimento da agência governamental. Imagine quantos macacos Alberts, quantas cadelas Laikas, quantos personagens do Bruce Willis morreram para testar a eficiência dos travesseiros. Não duvido que o próprio urso da propaganda tenha sido vítima fatal do experimento, o que lhe rendeu ao menos um “in memoriam” na embalagem. Eu sou um entusiasta do conforto, não me entendam mal, mas não posso compactuar com esse tipo de realização inescrupulosa.

Suponho que algum habitante no deserto do Atacama possa ter a necessidade de um travesseiro gelado. O resto de nós não. Chegou a hora de deixarmos dessas perfumarias e tratar de nos preocupar com os valores essenciais. É isso que esbravejo mentalmente enquanto ajudo a Lu a carregar quatro modelos FrostyGel para dentro do nosso Uber. Parece que estavam na promoção. Chegarei em casa com duas certezas. Primeira: esta noite saberei qual o impacto da “malharia hiperdensa” no meu pescoço. Segunda: quando falarem de ficção científica, eu não mais pensarei em raios laser, carros voadores ou androides assassinos, mas em alguma filial da Ortobom.

Eu realmente deveria ter ido embora quando vi o urso polar.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Reprodução)

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