Elegia para corações arrancados. Por Daniel Baz

Não há maneira certa de arrancar um coração. Há os que preferem deixá-lo à míngua para extraí-lo sem resistência. Escondem os incensos, tampam os vermelhos, cegam as peles, afogam as asas, guardam os filmes em branco e preto, os discos de música cubana, e observam o coração emagrecer, desinchar-se do próprio pulso, flexionar-se sem força como um clichê. Aí, basta soltar, no meio da noite, as milícias de homens duros e solenes, e deixar que eles digam seus discursos sem música ou pudor, discurso só zunido e ração, até que os corações saiam de seus covis, tímidos e desidratados, para serem levados às prisões, definitivamente arrancados.

Há os que preferem arrancar o coração com ameaças. Espancam os mendigos. Queimam os índios. Deixam de acreditar nos dragões, nos poemas entre o ganido e a sede. Gritam para dentro das janelas que o dia próximo não chegará, que os enfermos não receberão seus remédios, que o lixo não será recolhido, que as margaridas serão colhidas em atraso, que dos frutos não se usará nem o silêncio, que as meninas esquecerão o cheiro do sorriso e aos meninos será dado um brinquedo que queime a trajetória dos pássaros. Até que, cansados, os corações descem de suas sacadas para enfrentar uma multidão armada de paus e pedras e hinos, definitivamente arrancados.

Há os que preferem definir o coração até que ele perca sua serventia. Há milhares de corações assassinados nos dicionários, tendo de lápide a língua fria dos gramáticos. Mas o coração, esse mastro de vento nas orações do sangue, essa letra de areia molhada no cume do grito, esse número de fogo no teto dos aromas, esse caroço inútil na língua de um deus virgem e faminto, não se entrega tão fácil. Para arrancá-lo com sucesso, é necessário também estampá-lo com letra escarlate na capa dos jornais, letras obscenamente maiúsculas, tipografadas sob a castidade fingida da aurora.

Então é hora de apresentar o coração nos programas de auditório, debochar do seu jeito sinuoso de andar, procurar suas infrações nas câmeras de segurança, zombar de sua dicção infantil, de sua retórica de sonho aventurado, mostrar os documentos que revelam sua participação em todas as revoluções, utilizar as melhores tecnologias para ouvir seu sussurro debaixo não apenas dos versos de amor, mas em certos poemas de guerra, em diminutas estrofes que falam de um mundo a ser feito, em canções que, quando ouvidas atentamente, confidenciam-nos a liberdade. Em seguida, resta somente expor a pouca praticidade desse ritual sincopado dentro do peito, mais milagre que carne. Tem-se, enfim, um coração desfibrado, escuro como o verso da pálpebra. No hálito, o último cálice sem brinde, definitivamente arrancado.

Existem também os que arrancam o coração censurando seus costumes. Repreendem sua inclinação para andar com os pobres, aquecido pelas dores dos bêbados, sua fraternidade com o que é recente e não temente aos ruídos da memória. Reprovam seu pensamento de tigre, a forma respeitosa com que se dirige aos poetas, a rasura de seus bolsos, sua coleção de animais sonâmbulos, sua demora pelos becos, íntimo do que escondemos. Mencionam, com desdém, sua religião estranha, de ídolos que sorriem em águas profundas, desmerecem sua etnia impura, de raças vadias de músculo e abismo, sua genética de luz latejante, e execram sua sexualidade aprendida com as marés, maturada na ambição dos caules, no tumulto de perfumes que protege os jardins. Envergonhado de ter sua conduta caluniada, é natural que o coração se deixe migrar sem relutância nem retorno, definitivamente arrancado.

Há os que arrancam o coração como exilam um inimigo. E, os corações, que têm saudade de tudo, preferem morrer a ir bater em outra pátria. Querem de volta o rugido de suas tardes lentas, hasteadas como ciprestes; querem seus talheres de prata, seus cavalos despertados, suas serpentes de seda, a silhueta sem nome em seu sótão; querem o toque de suor ungido, quando nenhuma palavra dizia adeus, e ouvir uma vez mais seu apelido de infância. A diáspora deixa os corações ansiosos, escavando lembranças que se talharam em calores perecíveis. Ocupados com as estradas de não chegar da memória, acontece dos corações nunca mais encontrarem o caminho de volta, definitivamente arrancados.

Existem inúmeras maneiras de arrancar o coração e, é claro, há os que o fazem para acabar com sua política simples de palpitação e voz selvagem, extraindo-o a navalhadas, chantagens ou mordidas. Parecem não saber que um coração arrancado do peito ainda bate e, para sua vantagem, uma vez do lado de fora, pode enfim sentir a brisa, deitar à sombra, aquecer-se ao sol, contemplar os homens que guardam seu sangue com displicência e denunciar a tragédia definitiva dos nossos tempos: ter o coração arrancado por quem não sabe onde ele fica.

______

Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa: Imagem de un cuadro de Edvard Munch, realizado en 1894, y que se titula ‘Melancolía’ )

_____

Mensagem do editor:

Textos e imagens de propriedade do Diarios de la Pampería podem ser reproduzidos de modo parcial, desde que os créditos autorais sejam devidamente citados.

Comuniquem-nos de possíveis correções.

clique na imagem

Deixe um comentário