Quando há um acidente de qualquer tipo em alguma via pública, o ser humano mostra sua verdadeira face. De cada universitária sóbria, de cada carteiro sério, salta um perverso Marquês de Sade; em qualquer funcionário público, em todo tímido pintor de paredes, emerge um vil Charles Manson; todos unidos em contentamento para apreciar a desgraça. Eu, diferente destes, ignoro o espetáculo cruento dos acidentados e procuro uma figura muito mais intrigante.
E importante.
Ela geralmente tem em torno de sessenta anos e pode se apresentar em qualquer gênero ou etnia. O que a distingue dos demais espectadores da cena é a postura. Uma mão ao queixo ou na cintura em meio à agitação de membros. Um olhar atento e penetrante dentre fitadas vulgarmente curiosas e carregadas de certa improbidade fetichista. Uma tranquilidade madura e impassível no meio de uma maré de nervosos.
Sei neste momento que estou diante de um especialista. Todo acidente deve ter, ao menos, um. Caso eu não consiga achar-lhe pela pose (há acidentes mais concorridos que os shows da Anitta, com gente se empoleirando em pirâmides humanas para ver o estropiado), consigo encontrá-lo pelo som, já que suas palavras também são todas excepcionais. Trata-se de alguém que, mal vê um ciclista acertar a traseira de uma Biz no cruzamento da General Neto com a Vice-Almirante Abreu, começa a resenhar sobre a circunstância dos amassados na lataria, acerca da obviedade da maquiagem dos envolvidos, da má disposição tragicômica do enredo, da exagerada iluminação de influência expressionista, da fraca performance dos feridos (na sua opinião, uma mistura de Stanislavski com Cirque du Soleil).
Olho para o lugar de onde vem a gabaritada análise e lá está ele ou ela, em seu inconfundível porte de sommelier, tentando definir se é de carvalho ou de nêspera aquele aroma que sai do escapamento de um dos veículos. Como um perito do CSI, o indivíduo especula o território com concentração enquanto sente as notas ácidas e agridoces na mistura entre sangue, suor e gasolina, para debochar, em seguida, do ângulo em que se encontram os espelhos retrovisores e citar, em latim, as traquitanas deformadas entre a bomba de combustível e o carburador. É alguém que nunca demonstra espanto, dúvida, admiração ou susto e poderia distinguir um som de um para-choque sendo arranhado na Avenida Portugal no meio de um show do Olodum na Avenida Atlântica.
Quando se aposenta, qualquer cidadão pode desenvolver essas habilidades e, de fato, esta é uma das funções mais nobres daqueles com muito tempo livre: o de dar a esses ocorridos aparentemente banais e arbitrários o seu devido estofo moral. São eles que reconectam estes episódios aleatórios ao todo ético da sociedade, como uma espécie de coro grego. Alguns, inclusive, possuem idade suficiente para terem aprendido o ofício com Sófocles e Ésquilo.
Esses dias, dois carros se enroscaram na rotatória da esquina do colégio Lemos Júnior. Logo, a aglomeração estava formada, com direito à polícia e ambulância. Depois de alguns minutos, um senhor, posicionado ao meu lado, começou um solilóquio que iluminava os demais acerca dos problemas daquela rua, desencavando, em seu discurso, o descaso da secretaria de transportes, a má sinalização, a pálida pintura da faixa no chão, os buracos mal remendados, a desatenção dos oftalmologistas e, naturalmente, os motoboys.
Pronto. Graças a esse Balzac de esquina, a esse verdadeiro Tolstói de bengala e caspa nos ombros, a sociedade tornou-se íntegra novamente. Todos ficam satisfeitos em ver que um acontecimento vulgar e sem graça tem a potência de um drama rocambolesco, como se a Doutor Nascimento pudesse ser habitada não por sua tia Angelita, mas por Renée Falconetti, Glória Swanson ou Thalía. Em seguida, para não perder a atenção da plateia, o sujeito falou sobre os tópicos fundamentais da malha urbana de Rio Grande, direcionando seu discurso aos jovens que ouviam embasbacados. Eram histórias sobre um tempo no qual a cidade acreditava nas ruas de mão dupla, quando nossas vias não só iam, mas também voltavam, e não tínhamos que passar pela Socoowski para comprar cigarros na esquina de casa. Por fim, o oráculo urbano terminou sua arguição histórico-mitológica e desapareceu, deixando-nos com a certeza de que, se estamos dirigindo muito mal, pelo menos ainda temos boas histórias para contar.
Quando caiu o muro de Berlim, quando Pompeia foi consumida pela gula vulcânica, quando a população francesa tomou a Bastilha, quando o Hildemburg se espatifou em Nova Jersey podem ter certeza de que havia, a alguns metros dali, um senhor ou senhora de mãos nas cinturas, a reclamar do risco de voar num dirigível cheio de hidrogênio, da má refrigeração das cidades de Roma, da péssima qualidade do cimento vendido em Berlim ou da ótima qualidade das guilhotinas parisienses, o que, para mim, é um verdadeiro alivio: se somos uma turba de Charles Mansons a vagar pelo mundo destruindo paredes, derrubando prisões e incendiando meios de transporte, que pelo menos tenhamos bons narradores para avaliar e compartilhar os nossos dramas.
______
Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa: Reprodução)
_____
Mensagem do editor:
Textos e imagens de propriedade do Diarios de la Pampería podem ser reproduzidos de modo parcial, desde que os créditos autorais sejam devidamente citados.
Comuniquem-nos de possíveis correções.


