Ao olhar para baixo, Gervásio percebeu que estava em cima de uma nuvem. Esfregou os olhos, beliscou-se e, percebendo que aquela pastilha de LSD tomada em uma boate no ano de 1979 não poderia ter um efeito tão prolongado, externou a única alternativa plausível para o que sucedera consigo.
– Morri e estou no céu.
– Sim – respondeu uma voz que parecia vir de todos os lados, grave, potente, mas gentil.
– Cid Moreira? – perguntou Gervásio.
– Quase – respondeu a voz. – Sou Deus. E estou aqui para te receber, pois todos que adentram meu reino são agraciados com a dádiva de ter o maior segredo de todos os segredos do universo revelados por mim.
– Eu vou saber o sentido da vida? – perguntou Gervásio.
– Não. Muito melhor – disse Deus.
– O que há depois da morte?
– Também não.
– Hum, a fórmula da Coca-Cola? O motivo dos fones de ouvido se enroscarem dentro do bolso?
– Deixa disso, Gervásio.
– Então fiquei sem ideias.
– Você vai finalmente saber qual é o formato do planeta Terra.
(Silêncio)
Gervásio recomeçou:
– Mas isso o Pitágoras já sabia. O Giordano Bruno, Copérnico e Galileu Galilei também. Eles e outros decifraram este e muitos segredos do cosmos, e descobririam mais, inclusive, se o teu pessoal não tivesse dado um trato em alguns deles…
– Águas passadas, águas passadas – interrompeu Deus. – Mas onde você estava nos últimos anos, Gervásio? Hoje sabemos que a questão continua aberta lá embaixo – Deus estava visivelmente excitado – Ah, há quanto tempo eu não via vocês tão interessados pelos mistérios da criação, tão envolvidos em descobrir a lógica por trás do mundo, os mecanismos sob o tapete do cosmos.
– Mas todos sabemos que a terra é redonda e gira em torno do sol. Na realidade, somente um bando de malucos seguidores do Olav…
– Depois dos terraplanistas – Deus interrompeu novamente. – cada vez mais teorias surgem para dar conta de precisar o formato da terra, todas muito interessantes, engenhosas, algumas eu mesmo jamais teria idealizado. Você sabia que, neste exato momento, enquanto conversamos, há inúmeros grupos, seitas, organizações, desenvolvendo modelos que ponham um fim no assunto? Há um grupo de neoliberais no Texas, por exemplo, que trabalha em uma teoria com o propósito de provar que a Terra tem o formato de uma pirâmide, cujo eixo gravitacional se move ao redor de um busto gigante do Ludwig Von Mises. Segundo eles, com o passar do tempo a gravidade atrai os habitantes do planeta para o cume ou para a base, de acordo com seus méritos pessoais. Além disso, o modelo também pretende demonstrar que as marés são influenciadas pela alta do dólar e que o derretimento das calotas polares é um grande esquema publicitário da Brastemp para vender minibares. Como resposta a esse modelo, um partido socialista da Estônia espera atestar nas próximas semanas que a Terra possui a forma de uma grande foice a girar em torno de um martelo de mesmas proporções. Segundo seus cálculos, o aquecimento global seria fruto da energia liberada toda vez que um empreendedor diz a frase “Durma enquanto eles trabalham”. O grupo pretende expor também que certos fenômenos naturais, como a aurora boreal e o arco-íris, são manufaturados na Áustria por adolescentes vietnamitas pagos pela Nike com grãos de bico.
– Mas isso é um absurdo.
– Absurdo?! – continuou Deus. – Hoje há em Singapura um proprietário de uma loja de discos que acredita que o planeta de vocês tem o formato de um vinil arranhado do Steve Wonder. Na Austrália, existe um taxidermista que crê piamente que a Terra é a silhueta da Monica Bellucci vagando de biquini pelo cosmos (ele supostamente viveria no lugar em que fica o umbigo dela). Ah, e não posso deixar de mencionar uma secretária na Austrália que defende que ela seja, na verdade, um Ukelele sem a corda Sol.
– Quer dizer que ninguém mais acredita que a Terra é redonda? – exasperou-se Gervásio.
– Claro que sim. Ouvi falar em um taxista de Kyoto que acredita que a terra é redonda. Até por que ela seria o formato exato da cabeça do Bruce Willis. É fascinante!
– Como “fascinante” ?! Não é possível que cada um invente o formato para a Terra que melhor preencha suas alucinações e expectativas.
– E qual o problema, Gervásio? Já não bastam a fome, o desemprego, a guerra e os filmes dublados, por que não permitir que todo ser humano fantasie habitar um mundo feito à imagem de seus sonhos e ambições?
– Mas isso seria o caos. É preciso usarmos a razão. É necessário ter rigor científico! O que diriam Armstrong, Gagarin, a cadela Laika? Não é possível que a cadela Laika tenha morrido em vão!!
– Diz isso pro cara da Guiné Bissau que julga viver em um Kebab intergaláctico. Ora, Gervásio, você nunca pensou fora da caixa, nunca sonhou com uma Terra cuja feição fosse diferente da dos livros? Hein, confessa.
– Bem, já que estamos aqui, uma vez imaginei que o planeta pudesse ter a aparência de um velho baú, a nos guardar pelo sistema solar. Seria melhor que Steve Wonder ou a cabeça do Bruce Willis, não é mesmo? É uma hipótese, não?
E Deus, finalmente se revelando, com um leve sorriso nos lábios, colocou uma das mãos no ombro de Gervásio, enquanto, com a outra, apertou o botão que abriria o alçapão sob seus pés, e respondeu:
– Claro que não, Gervásio! Tá maluco!?
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa: Reprodução)

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