Certa manhã, depois de acordar de sonhos intranquilos, Franz Kafta se viu em sua cama metamorfoseado em um monstruoso presidente do Brasil. Aquilo não era coisa que acontecesse da noite para o dia, especialmente porque Kafta tinha passado os últimos trinta anos de sua vida trabalhando no funcionalismo público sem fazer qualquer coisa digna de nota. Como teria se operado nele aquela terrível metamorfose?

“Seria um sonho?” – pensou Kafta, enquanto tentava se movimentar dentro da sua nova carapaça de chefe maior do Executivo brasileiro e sair de sua cama. Mas a sua cama era muito larga e, ainda por cima, redonda, pois tinha sido dada de presente pelo seu amigo Alexandre Frota, sujeito que acordou, depois de sonhos libidinosos, transformado em um monstruoso Deputado Federal. O móvel tinha vindo também com um monstruoso espelho de teto, o que obrigava o pobre Kafta a encarar involuntariamente a monstruosa criatura na qual se transformara. “Será necessário repensar essa minha monstruosa amizade com o Alexandre Frota”, pensou o presidente.
Depois de muito esforço, Kafta conseguiu saltar de dentro dos lençóis e colocou-se de pé no meio do seu quarto. Foi uma façanha difícil. Fazia tempo que Kafta não treinava os exercícios que aprendera com os Agulhas Negras. Uma vez fora da cama, o presidente tentou chamar pela sua mulher ou por um de seus três filhos, mas só conseguia dizer coisas incompreensíveis, arremedos de discurso que formavam sentenças sem pé nem cabeça:
“- Estou sofrendo de preconceito heterossexual.” – disse Kafta.
“- Pinochet devia ter matado mais gente.” – insistiu.
“- Trabalhadores tem que escolher entre ter direitos ou emprego” – recomeçou o presidente.
“- Os gays não são semideuses. A maioria é fruto do consumo de drogas” – concluiu.
Nem mesmo Kafta poderia entender porque estava falando tamanhos disparates. Para piorar, a maioria de suas frases terminavam com um grunhido primitivo, tatibitate de sonoridade sinistra e que poderia ser traduzido para o vernáculo como “Talquei” ou algo parecido com isso. Mudando de estratégia, Kafta tentou uma saudação amistosa, a ver se era ouvido por alguém que passasse do lado de fora, mas, quando abriu a boca, exclamou: “Bom dia, novaiorquines!”, o que o deixou com muita vergonha e o obrigou a ficar em silêncio até que tivesse algo realmente útil para dizer. Depois de um longo tempo, um pouco mais confiante, Kafta abriu a boca e afirmou: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. Era um caso perdido.
Sem conseguir se comunicar, Kafta dirigiu-se até a porta do seu quarto. Quando saísse dali, certamente alguém o ajudaria a reverter aquela condição escabrosa ou, pelo menos, o auxiliariam a compreender a maldição insólita que se abatera sobre ele. Só que, no momento em que tentou tocar na maçaneta, Kafta reparou que seu polegar estava duro e em pé e seu indicador apontava com firmeza para a frente. Não era possível manusear a chave da fechadura ou girar a maçaneta com os dedos tencionados como se fossem um revólver. O presidente estava preso.
Assim, sem poder falar nem sair do quarto, Kafta voltou-se para sua estante de livros. Ali deveria haver algum volume que o ajudasse a sair daquela enrascada. Com isso em mente, o novo presidente do Brasil foi até as suas prateleiras, empoeiradas pelo desuso, mas, ao fitá-las, lembrou-se de que as únicas obras empilhadas sobre elas tinham sido escritas por seu amigo Olavo de Carvalho, sujeito que acordou certo dia, depois de sonhos megalomaníacos, transformado em um monstruoso astrólogo-jornalista-conservador-filósofo-auto-proclamado-guru-da-direita-brasileira.
Com Olavo, Kafta aprendeu que a Pepsi usa fetos abortados para adoçar seu refrigerante, que a Terra é plana e não gira em torno do sol, que Niels Bohr é um charlatão, que macumba é satanismo e que o Foro de São Paulo existe, informações que lhe foram muito úteis até o momento, mas que de nada serviam para o tirar daquela medonha metamorfose na qual se via metido. “Será necessário repensar essa minha monstruosa amizade com Olavo de Carvalho”, pensou o presidente. Uma pontada de esperança atingiu Kafta quando ele viu um livrinho diferente, caído atrás da estante. Ali sim poderia haver alguma informação sobre sua metamorfose. Mas era apenas o livro infantil sobre o aparelho sexual humano que ele mostrara em um noticiário da TV. “Deveria ter lido mais” – reclamou Kafta.
Assim que percebeu que sua biblioteca pessoal de nada adiantaria para livrá-lo daquela transformação, Kafta ouviu passos no lado de fora de seu quarto. Eram seus três filhos. Todos eles, depois de acordarem de sonhos patéticos, com milicianos e símbolos fálicos, tinham se transformados em monstruosos servidores públicos. Vinham acompanhados de criaturas tão desesperadas e despreparadas quanto eles. Aparentemente todas elas, depois de acordar de sonhos risíveis – que misturavam indiazinhas sequestradas, currículos falsificados, chocolatinhos, “conges”, entre outros disparates – viram-se transformados em ministros da República. Em nada poderiam ajudar o pobre Kafta. “Será necessário repensar essa minha monstruosa amizade com todos eles”, pensou o presidente.
Foi nesse momento que Kafta ouviu, da janela de seu quarto, os gritos de uma multidão que saía às ruas. Estava também transformada. Suas mãos pareciam cartazes, suas vozes pareciam sirenes, seu peito arfava na apneia dos tigres. Aproximando-se do vidro para observá-las, o presidente meditou: “Teriam essas pessoas todas também se metamorfoseado em alguma criatura monstruosa como eu?”. Mal sabia ele.
Mal sabia ele.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa – Montagem: Da página no Twitter “Kafka & Samsa Inseticidas e repelentes ltda”/Reprodução)
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