O celular vibra no bolso.
Uma ligação de cotidiano logo me faz pensar no essencial da profissão jornalística: uma possível informação com potencial de notícia. “Entrevista marcada, os leitores da próxima edição agradecem”, eu pensei.
No local combinado, primeiro um cumprimento. Capricho no sorriso leve e numa abordagem amistosa; uma comunicação que não deve deixar dúvidas, ao menos de minha parte não é inventada.

O encontro é com um político profissional, e qualquer contágio com hábitos fabricados pode transmitir riscos incalculáveis ao fígado. Nesta situação, sempre digo de mim para mim: feche o corpo e alimente a alma de boas intenções. O cumprimento que se segue soa mais do que usual e espontâneo:
– Bom dia, como vai a sua pessoa?
– Bom dia. Como vai…
Mal consigo concluir o raciocínio, sou interrompido.
O sujeito começa a falar; ou melhor, o político local logo me assegura da importância de sua ação em “prol da comunidade”. Mostra, por conveniência de dito poder transmitido como não momentâneo, que fez muito para “aquela gente”; a figura se posta como um santo notável. De seu autorretrato, posso até evocar um sublinhado “discurso de patrão”.
“Não era uma entrevista?”, sem demora eu pensei comigo.
– É importante ainda ressaltar… – o sujeito atravessa o meu pensamento.
Tenho dificuldades de esboçar um “a” sequer. O sujeito fala, fala, fala.
Em dado momento, sinto-me inútil pela aspereza de personagem secundário que ele atribui ao resto da humanidade; incluindo a figura deste repórter.
O nosso entrevistado segue firme numa fala pausada; político local pensa cada palavra e esgota rápido seu repertório de chavões; em certa passagem, corrige-se interpelando o curso de minhas anotações: “assim, não. Coloca assim!”. Ele fala e eu taquigrafo a mensagem; faço que anoto, inclusive, seus tiques não aparentes nesta publicação.
Uma ênfase da vida. Percebo-me então com uma angustia de quem premeditou uma entrevista, mas que se deparou com um monólogo enfadonho. O nosso entrevistado costumava usar de tal expediente…?
Noto que o sujeito não respeita ou não tem noção do outro; no caso específico, o repórter mal consegue desempenhar a sua função. O nosso entrevistado não falava deste mundo? Talvez seja imaginação de minha parte ou uma maldade minha esta recordação de cidade pequena.
Ainda sobre o entrevistado, ops, o político local. Para não tomá-lo de vez como um coronel de romance regionalista, melhor pensar que falta a ele um pouco de senso de localização.
Se é que me faço entendido sobre este tipo de ser humano.
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Do título original “Com um ‘rei do monólogo’, a falsa entrevista”; a crônica foi retirada do baú pessoal do autor. Editor do blog, Renato S. M. atua como jornalista, professor e pesquisador em Literatura; é autor do livro Diários de um jornalista sem solução (saiba mais aqui).
(Foto de capa: Créditos de Diarios de la Pampería)
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