Sempre que um grito rasga a noite, desses que levam em seu timbre a frequência exata do desespero humano e que justificam os livros do Schopenhauer, os quadros do Munch e a trilhas do Bernard Herrmann, eu compadeço-me, sinto a espinha esfriar e uma lágrima correr ao longo do rosto, pois conheço a terrível verdade: alguém acabou de bater com o dedinho do pé em algum objeto. Contudo, se, num primeiro momento, eu sinto empatia e luto, pensando na angústia que se abateu sobre o desconhecido fraturado, logo um sorriso se forma em minha boca. Antes que o leitor me acuse de sádico, permita-me que explique.

Bater o dedinho é participar de uma incrível revolução. Revolução essa que pode ser de ordem simbólica, social, política, ética, entre inúmeras categorias de mesma envergadura filosófica. Duvida? Então me acompanhe. A batida é ética porque mexe numa hierarquia muito íntima: a do corpo. Nós vivemos tomando cuidado com certas partes da nossa anatomia, como os olhos, os ouvidos, a genitália e a boca; uma vez ou outra atentamos também paras mãos e seu tato, para a sensibilidade do nariz e seu formato, para os cabelos e seu perfume. Conforme envelhecemos, podemos desenvolver outras obsessões, nos preocupando com as carências dos rins, dos pulmões, do fígado. Quantas noites gastamos pensando em nosso fígado, ou em nosso sistema gástrico e digestivo como um todo?! No entanto, quem dentre nós perdeu um minuto sequer de sono a se preocupar com as necessidades e prazeres de um reles dedinho do pé? Nem precisam responder: ninguém.
Pois então, quando nos levantamos uma noite, às 3 da manhã, para arrebatar aquele último pedaço de pudim, levando em nossas cabeças as mais profundas indagações de ordem intestinal, ou quando partimos a jato pela sala, ocupados em aliviar as tensões da bexiga ou, ao contrário, em busca de um copo d`água para empurrar de vez a janta de domingo, é aí que o mindinho entra em cena, esticando-se com um espasmo ligeiro, sabedor que é de nossa indiferença em relação a ele, e acerta em cheio a quina de nosso móvel mais duro, lembrando-nos de que o corpo é imenso e de que, se não atentarmos para todas suas penínsulas, jamais poderemos ter tranquilidade. O dedinho ensina à nossa consciência arrogante que bastam dois centímetros de carne, pele e falanges para destruir a nossa alegria. Independente do dia e da hora, uma célere canção infantil da Eliana pode, subitamente, se tornar um sanguinário filme do Freddy Krueger.
A tropicada é também uma revolução política e social, pois nos iguala a todos. Quando a rainha da Inglaterra mete seu dedinho real no armarinho do banheiro, sua boca esquece questões de menor importância, como a genealogia, e dispara palavrões como qualquer caminhoneiro de estrada. O que é a monarquia parlamentar diante do dedinho? Nada. Saber que Pinochet, Geisel, Gengis Khan e as pessoas que mandam áudio no Whats já passaram ou passarão pela aflição de um dedinho contundido, põe um sorriso em qualquer carranca. É o suficiente para levantarmos no dia seguinte acreditando ainda em justiça social.
A revolução é também simbólica, pois, em outros contextos, os dedos dos pés nunca significam mais do que aquilo que são, o que é um grande desperdício. Ninguém melhor do que eles poderiam representar a dor em escala universal. Uma francesa com Ph.D. em literatura na Sorbonne, um esquimó vestido com peles de morsa, um acrobata croata e um vendedor de pastel em Serra Leoa, todos se tornam o mesmo primata com cegueira temporária, analfabetismo funcional e insuficiência afetiva quando enfiam o pé em algum obstáculo agudo.
Se ao invés da crucificação, a igreja tivesse investido na imagem de Jesus Cristo atingindo seu dedinho em algum instrumento de tortura romana, hoje só existiriam cristãos no mundo. Aliás, se quisermos falar de religião, é preciso admitir que poucas pessoas têm experiências espirituais mais consistentes do que a dor de um dedinho lacerado. É um ato de transcendência pura, desconectada de qualquer base material, posto que, se a parte do corpo atingida fosse proporcional à dor sentida, nosso mindinho deveria ter, no mínimo, 15 metros de comprimento.
Por fim, o tropeção pode ser considerado uma revolução estética porque, depois de todas as conclusões anteriores, é impossível voltar a confiar na arte e nos artistas. Sim, pois nas pinturas de Bruegel, nas óperas de Verdi, nos filmes de Fassbinder ou nos livros de Dostoiévski não há notícia de pessoas dando com o metatarso em pés de mesa, o que depõe não só contra o drama criado por essas obras, mas também contra a sua verossimilhança. Se juntarmos “Crime e castigo”, “Os irmãos Karamázov”, “O idiota” e “Os demônios”, temos quatro mil páginas de todo tipo de baboseira, com assaltantes enfiando o furto embaixo de pedras, dinheiro sendo queimado em lareiras, conversas com o diabo, parricídios, incêndios à margem do rio, mas, em nenhum momento, o romancista russo dignou-se a colocar na boca de algum coadjuvante a seguinte frase: – Natasha, me acode que meti o dedinho no canapé!”. Não sei a opinião do leitor, mas, para mim, essa falta empobrece muito o estilo daquele que já foi considerado um dos maiores. Eu não tenho ambições de me tornar um clássico russo (me impede o inconveniente de ter nascido em Rio Grande), mas ensaio um primeiro esforço nesta crônica, em ordem de corrigir esse erro terrível de nosso passado artístico. Sem dedinho não há cultura. Podem me reservar um Jabuti.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Foto de capa – Montagem: KD Imagens/Reprodução)
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