Crônica da minha morte anunciada. Por Daniel Baz

Se vocês pudessem, vocês me matariam. Não me venham com sorriso cordial, com apertos de mão sem força às oito da manhã. Não me desejem bom dia. Não me perguntem “Como vai? E a família?”, porque, no instante em que eu virasse as costas, um golpe pesado me atingiria a cabeça, e eu jamais poderia saber quem entre vocês foi o autor de minha morte. Se vocês pudessem, vocês entrariam na minha casa à noite para envenenar meu cão, cortar meus girassóis e jogar água fervendo em meu ouvido enquanto durmo. Depois iam alterar meu passado, mexer no meu histórico da internet e dizer aos vizinhos que eu mereci, que eu sempre fui um canalha, um pária, um antissocial. E visitariam a cidade em que nasci para arrancar as placas das ruas, para confundir as lembranças dos meus amigos de infância e contar aos meus pais a pessoa sórdida que fui.

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Se vocês pudessem, apertariam minha garganta até que me faltasse o ar, e meus olhos esbugalhassem, e minhas mãos ficassem sem possibilidade de pulso ou punho, e, sem ninguém para me acudir, deixariam meu corpo sob o assoalho frio de um sábado qualquer. Se vocês pudessem, me surpreenderiam em um beco durante algum feriado festivo, armados e em grupo como de costume. E os televisores ligados abafariam meus gritos. E iam pisar na minha sombra e revolver minha mochila e debochar da marca da minha camiseta e da exuberância dos meus anéis. E as pessoas que passassem pela rua imaginariam as atrocidades que eu fiz para ser caçado com tanto ódio e para ser morto sem nenhum direito, alívio ou perdão. Então vocês chutariam o meu corpo inerte e partiriam minhas costelas e pulariam sobre minha nuca para garantir que eu nunca mais emita um som. Depois iriam jantar em um bom restaurante, daqueles em que não se distingue o guinchar dos talheres, as saudações automáticas, a música ambiente.

Se vocês pudessem, me cercariam no lugar em que trabalho para jogar detergente na minha marmita e se juntariam para me emboscar na hora do almoço e me esfaqueariam antes que eu batesse o ponto e cuspiriam no meu corpo ensanguentado e checariam meu cadáver em busca de algum gesto de resistência e mandariam os cães farejarem algum fedor de vida em meus bolsos vazios. Depois diriam aos meus filhos que eu caí de uma sacada, de um andaime altíssimo, de algum elevador fora de serviço, ou que me enforquei na prisão ou que sumi na floresta mais próxima. E contariam a eles que eu sempre fui desastrado, que eu andava desligado, isso quando não estava bêbado ou drogado, e que era uma pena eu ter me ido tão cedo, tão cheio de vida, com tanta coisa para realizar. E explicariam aos meus netos que eu sempre fui um sujeito esquisito, que eu dava assunto aos porteiros, que eu não assobiava para as mulheres, que eu não ria de certas piadas, que meu desodorante era barato e que os cães que eu alimentava pelas ruas se aglomeravam nas portas das instituições frequentadas pela gente de bem. E que eu errava os plurais.

Se vocês pudessem, vocês cancelariam meu plano de saúde, trocariam as senhas da minha conta bancária, e perderiam minhas chaves, minha carteira de identidade, e mudariam o sabor da minha pasta de dente e salgariam meus pensamentos e marcariam meus sonhos a ferro e tirariam de mim todas as sinfonias e rasgariam minhas velhas edições de poesia e abortariam meus afetos e esperariam que a diabetes, a hepatite, a enxaqueca, alguma doença ordinária se ocupasse da lenta e justa tarefa de minha morte.

E raspariam minhas digitais e arrancariam meus dentes e cortariam os cabelos da mulher que amo e serviriam vegetais radioativos à mulher que amo e diriam a ela que eu frequentava bordéis, que eu era broxa, que eu era viado, que eu dançava sem vergonha nos salões, que eu andava nu pelas madrugadas e que não houve outra alternativa a não ser me arrancar as unhas, a língua, os olhos, o pênis, o tesão, a fome, a ganância, a ânsia, o suor, o som dos pássaros que herdei de minha avó, o meu penteado fora de moda, e saquear meu covil, os colchões com o formato do meu corpo, o travesseiro com meu bafo ainda quente, os lençóis aromatizados pelo medo, e me obrigar a dançar em cima dos meus segredos e banhar-me com gasolina e atear fogo até a carbonização de todas as minhas letras, até que não se pudesse diferenciar, em meio às cinzas, minha ossada e meu silêncio.

Se vocês pudessem, vocês me fechariam no trânsito para metralhar meu carro enquanto gritam palavras de ordem. Se pudessem, vocês rezariam para que Deus semeasse em meu corpo engrenagens de dor e agonia e diriam que minha morte foi obra correta do altíssimo e jogariam meu corpo no mesmo barranco em que se acumulam mulheres mortas pelos maridos, meninas violadas pelos irmãos, indígenas consumidos pelo fogo, negros pneumônicos, paraplégicos, judeus, ciganos, analfabetos, homossexuais, órfãos de tudo. Todos a quem fosse dado o crime de viver sem lhes prestar contas. Todos cuja fé é um retornar para o outro.

Se vocês pudessem. Ah, se vocês pudessem… Então não me deem bom dia, não apertem minha mão, não me cumprimentem nos feriados nem nos meus aniversários. Para vocês eu sou a promessa de um cadáver, um fantasma a quem foi dado o inconveniente de pensar e dizer. No entanto, devo lembrá-los de que a morte é sempre propriedade de quem a sofre, e a minha será um milagre sonoro, uma eternidade fluente em sangue, uma consagração das perguntas essenciais e, quando estiverem observando-me morto, alguém dentre vocês – inconfessável, confuso – se perguntará: o que fizemos?

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa (Ilustração): Reprodução/Imagem do filme O Iluminado, de Stanley Kubrick)

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