Jaguarão – Amigas e colegas de longa data, Samira Jaber Suliman Audeh, Marta Espinola Solla Gonçalves e Cristina Bom têm em comum algo que não passa despercebido de conhecidos e familiares: a paixão e o amor desmedidos pelos animais. Este duplo sentimento que as três carregam consigo, digamos assim, as levam se reunir mais de uma vez ao mês na praça Alcides Marques, centro de Jaguarão, para promover o Brechó Quatro Patinhas: um empreendimento criado para arrecadar dinheiro e ajudar no tratamento de animais – gatos e cães, em especial – resgatados em situação de abandono nas ruas e com necessidades de atendimento especializado.

O Brechó ocorre das 9h às 16h no primeiro e último sábado de cada mês, associado à Feira da Economia Popular e Solidária de Jaguarão, realizada sempre no primeiro sábado de abertura de um novo mês. Às vezes acontece das três amigas armarem a banca em outros sábados e no meio de semana também. Comercializam, a preços populares, itens de bazar e objetos diversos doados por pessoas e empresas de Jaguarão e de Rio Branco – novos e usados. Tudo em condições adequadas e em benefício dos animais – atestam Samira, Marta e Cristina.
Desde o início na ação social, Samira relata que o Brechó ou a ideia dele, surgiu quando uma amiga uruguaia, Claudia Aline, lhe repassou uma dica citada numa conversa de cotidiano, diálogo associado ao fato das duas comercializarem peças de crochê e tricô num trecho da calçada da mesma praça Alcides Marques. A amiga uruguaia teria dito para a amiga brasileira: “Porque a gente não traz coisas para vender e ajudar os animais?”. Uma resposta então viria.
Era o primeiro semestre de 2015, quando a dica se transformaria em realidade. As duas juntaram uns objetos aqui, outros acolá. Puseram literalmente a banca na praça, na rua, ou melhor, na calçada da praça: a amiga uruguaia, então comerciante em Jaguarão; a amiga brasileira, engenheira agrônoma, funcionária concursada na Secretaria Municipal do Meio Ambiente. O cargo público exercido por Samira, aliás, agrega um pouco à história contada do Brechó e à própria imagem de mulher apaixonada e defensora dos animais.
Samira conta que trabalhava – e ainda trabalha – em um setor que cuida do canil municipal. Um pouco antes de pensar em Brechó Quatro Patinhas, ela costumava ir ao canil, diga-se, a trabalho, na época, um local com pouca estrutura para atendimento. Sempre que passava pelo canil, era comum Samira “adotar” animais e encaminhá-los para tratamento especializado em veterinárias particulares de Jaguarão. Conta que bancava os custos de tratamento de animais com dinheiro do próprio bolso, o que aos poucos afetaria o seu orçamento pessoal.
A dica da amiga Claudia, tornada ação social, viria em boa hora e bem a propósito. Começaram reunindo coisas que não estavam mais sendo usadas dentro de casa. Começam ao mesmo tempo a publicar em suas redes sociais, pedindo doações e divulgando a proposta de arrecadar dinheiro para bancar o tratamento de animais resgatados nas ruas da cidade e em situação de necessidades. Passaram a ir à praça uma vez ao mês, no princípio sempre aos sábados. Em pouco tempo, a ação social ganharia visibilidade. “Os nossos próprios amigos passaram a entrar em contato para fazer doações”, relata Samira, na companhia de Marta e Cristina, que participam da ação social desde 2017. A amiga Claudia ficaria dois anos na ação.
Com o dinheiro arrecadado via Brechó, as ativistas pagam pelo serviço de especialistas veterinários. “Encaminhamos animais para tratamento de quimioterapia, ortopedia, cirurgias em geral”, conta Samira à reportagem, enquanto alterna com Marta e Cristina o atendimento ao público. Os objetos e itens de venda costumam ser expostos no chão. “Por que não trazemos uma mesa? Assim as crianças teriam dificuldade de ver os brinquedos”, Samira e Cristina se antecipam à reportagem em um sábado de sol forte, enquanto Marta atende uma família com uma criança interessada em saber o preço de uma bola de futebol.
Uma mostra do atendimento das ativistas pode ilustrar um pouco da rotina do Brechó. Elas não param. E a imagem de um dia de trabalho voluntário não para por aí. Samira, Marta e Cristina contam que a ação beneficente pelos animais começa no meio de semana. “A gente trabalha mais em casa, preparando o Brechó, do que na comercialização”, explicam. “Temos muitas contas a pagar”, acrescentam, perguntadas em tom de brincadeira pelo repórter, se não pensam em dar uma folga com a ação social ou se já pensaram em descansar, no caso de Samira, depois de cinco anos atuando voluntariamente. Asseguram que não pensam em parar com o Brechó. Quanto às férias no trabalho voluntário (porque ninguém é de ferro), normalmente, são nos meses de janeiro e fevereiro, elas explicam, “por ser muito quente” neste período. Aliás, as ativistas dizem que vendem “melhor no inverno” e normalmente ficam satisfeitas com esta constatação. Afinal, há contas a pagar, no caso, são de inúmeros tratamentos pendentes em veterinárias e lojas de ração. Mesmo a cidade tendo um canil mais estruturado, as mantenedoras do Quatro Patinhas seguem atuando. Nesta história contada, elas só lamentam não terem algo: “Gostaríamos de ter um lugar próprio e coberto para a gente comercializar. Tipo uma garagem aqui perto do centro”, diz Cristina, explicando que com isso o Brechó poderia abrir também no meio da semana e estar protegido de chuvas eventuais.
“As pessoas nos ligam”, dizem, se referindo ao fato de serem bastante conhecidas pelo trabalho que realizam. No caso de Samira, ainda tem o fato dela ser associada ao canil. “As pessoas pensam que eu trabalho no canil”, ela diz, explicando que muitas pessoas a procuram por realizar inspeções sanitárias no canil municipal, por gostar de animais e ao mesmo tempo realizar um trabalho social em defesa destes. “As pessoas às vezes pensam que eu trabalho no canil e interpretam que o trabalho de resgaste voluntário de animais é um serviço público realizado pela Prefeitura. Não é”, ela acrescenta. Confusão à parte, Samira e as duas amigas sabem que as contas com os atendimentos chegam todo mês. “Só uma consulta em veterinário fica em oitenta reais”, as três exemplificam em mensagem conjunta.
Normalmente, os atendimentos são feito em parceria com locais especializados do município. O Laboratório de Análises Clínicas, por exemplo, cobra pelo atendimento adotando o preço da tabela do SUS (Sistema Único de Saúde). A grande parte do dinheiro arrecadado com o Brechó, no entanto, não é com os atendimentos veterinários. “A grande parte é usada para comprar ração”, diz Samira. “São 120 quilos de ração por mês”, asseguram. Mas também recebem doações. Transparentes, elas também se revelam abertas à comunidade. Uma prestação de contas é feita anualmente para a divulgação das ações. Em 2018, “foram feitas em torno de 70 castrações em animais fêmeas”, disseram Samira e Cristina. Ajudam na causa, além do Laboratório de Análises Clínicas, Latidos & Miados, Mister Dog, Cães e Cia, Clínica Bruna Macedo, Pet Shop Barão, Pró-criar e PetStar, que colaboram com a ação social das ativistas na medida do possível e com sentimento de identificação.






(Foto de capa e galeria: Créditos de Diarios de la Pampería)
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