Augusta, Angélica e Consolação, música do compositor e cantor Tom Zé, integra o disco Todos os olhos (1973). Destaca a voz de um eu poético que enfatiza três figuras femininas, mencionadas nominalmente no título da canção e aludidas sentimentalmente. A música traz à tona um destino e expõe, por meio de um samba bem humorado, uma consciência nostálgica e um tanto conformada, triste. Parece-nos o caso de quem reflete sobre a vida cantando e, ao mesmo tempo, trata de um presente de vida por meio de uma recordação. Um perfil cheio de marcas e cicatrizes e que lembra um ditado popular, que consagra e reproduz o “quem canta seus males espanta”.

Da análise da letra da música, podemos extrair dois planos de sentido; um descontextualizado e outro contextualizado, digamos assim. Cada um a seu modo, os retratos femininos ilustram a projeção de três amores. No primeiro plano de figuração, temos os retratos pessoais de Augusta, Angélica e Consolação. Elas vão ganhar perfis sucintos, breves, com base inclusive na etimologia de seus nomes. Augusta é a venerada, majestosa, solene, imponente, de quem o eu lírico não esconde o que sente: “Augusta, que saudade, / Você era vaidosa, / Que saudade”. São versos de uma consciência que não disfarça uma forte lembrança e associação que perdura no tempo. Angélica, por sua vez, vai ganhar um retrato menos positivo: “Angélica, que maldade, / Você sempre me deu bolo, / Que maldade,”. A recordação desta é negativa e soa como uma espécie de ironia mal disfarçada, a partir da tradução “angelical” extraída do nome de mulher. Já Consolação, com quem a figura de trovador moderno vai terminar, como sugere o nome, é quem vai fazer o papel de mulher-amiga-consoladora. Esta vai acolher o outro, após ele viver dois desenganos. Diz-se: “Eu encontrei a consolação / Que veio olhar por mim / E me deu a mão”.
Quando partimos para um segundo plano da figuração, passamos a ver além de três amores. Augusta, Angélica e Consolação se tornam, neste caso, expressões diretas de três importantes e famosas ruas da cidade de São Paulo, geograficamente postadas em alinhamento paralelo. Augusta ou a rua Augusta – muito conhecida pelas lojas, cinemas e bares noturnos – ganha a homenagem, por parte de quem não esconde uma imagem paradoxal. Augusta, “[qu]E gastava o meu dinheiro, / Que saudade, / Com roupas importadas / E outras bobagens.”. A rua Angélica, a Angélica, cita uma imagem distinta. Confeitarias e ambulatórios de uma realidade extralinguística batem com os versos: “Angélica, que maldade, / Você sempre me deu bolo, / Que maldade, / E até andava com a roupa, / Que maldade, / Cheirando a consultório médico, / Angélica”. Já à Consolação é conferida uma posição intermediária, já que ela fica geograficamente entre as outras duas ruas. Ela “Que veio olhar por mim / E me deu a mão.”, canta à Consolação o trovador angustiado pelos desenganos amorosos.
O texto da música termina com versos que destacam uma história contada. Conhecida pelo fluxo de automóveis, a rua Consolação ou seu trânsito vai levar a outros dois retratos famosos em São Paulo: Largo dos Aflitos e Estação da Luz. A citação destes soa aqui como um bom trocadilho. Depois de tentar conter a aflição no Largo dos aflitos, o trovador canta: “Eu fui morar na estação da luz, / Porque estava tudo escuro / Dentro do meu coração”. Versos que vão ser cantados de um modo que consideramos condizentes com a mensagem transmitida no texto. Consideramos, pois, a interpretação musical de Tom Zé coerente com o escrito, desde a escolha do gênero musical até a escolha das palavras e o tom da voz de conversa de botequim musicado em sua composição. O cantor baiano, há anos radicado em Sampa, acaba sendo convincente com a máscara de sambista paulistano. A música de Tom Zé, aliás, pode ser apontada como um exemplo de celebração e homenagem ao samba paulista. Um samba que nasceria nas senzalas do interior do Estado de São Paulo – diria o dramaturgo Plínio Marcos em suas crônicas e prosas e sambas com amigos sambistas da capital paulista de seu tempo: Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro.
A citação de Plínio Marcos surge do álbum Plínio Marcos: Em Prosa e Samba – Nas Quebradas do Mundaréu (1974), aqui um intertexto que pode ser útil na análise do samba de dor bem humorado de Tom Zé. Com Augusta, Angélica e Consolação, o compositor e intérprete acaba nos convencendo de que a dor de amor cantada pode ser uma dor menos dolorida do que a não cantada. Tom Zé, aliás, parece ser um especialista na abordagem. É ele intérprete também de outro samba do tipo, Dói, do álbum Estudando o samba (1976), que nos renderia outras apreciações.
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Editor do Diarios de la Pampería, Renato S. M. atua como jornalista, professor e pesquisador em Literatura. É ainda autor do livro Diários de um jornalista sem solução (clique aqui para saber); o texto do artigo sobre canção popular brasileira decorre de uma atividade acadêmica da disciplina Literatura e outras linguagens, lecionada no primeiro semestre de 2019 pelo professor Luís Fernando da Rosa Marozo na Universidade Federal do Pampa – Campus de Jaguarão.
(Foto de capa: André Conti/Divulgação)
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