Um poodle chamado Ademir. Por Daniel Baz

Há algum tempo nossa classe política analisa um projeto do deputado federal Pastor Reinaldo (PTB-RS), que visa proibir os cidadãos de dar nome de pessoas aos seus animais de estimação. A proposta causou muito desagrado nas redes sociais.  Eu, no entanto, fiquei aliviado. É um prazer ler notícia relacionada a um membro da bancada evangélica em que ele não fale sobre aborto, casamento de homossexuais, estado laico, entre outros assuntos que não são da sua competência. Prefiro abrir o jornal e ler o pastor dizendo que não posso chamar um chihuahua de Djalma do que ver esse mesmo pastor afirmando que não posso dormir com outro homem, coisa que, até o momento, não tive interesse em fazer, mas não autorizo nenhum membro da igreja a diminuir minhas opções.

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E é assim que começam os problemas do projeto e se termina meu alívio inicial: como o pastor pretende fiscalizar esse negócio? Segundo declarações do autor da proposta, ele planeja afixar cartazes nas casas de ração e veterinárias com o informe sobre a nova lei, certo de que isso irá conscientizar os cidadãos. Mas aí eu lembro que, certa vez, um tal de Moisés desceu do Monte Sinai com uma série de regrinhas muito mais simples (e autoexplicativas) e que, até a publicação desta crônica, depois de mais de dois mil anos de divulgação massiva, ainda não são muito populares entre os crentes, o que demonstra certa inconsistência na publicidade das igrejas. Sem falar que o redator desse projeto não foi um pastor qualquer, mas o Próprio em pessoa, ou melhor, em labareda. Ou seja, depois que os fiéis seguirem os Dez Mandamentos, aí sim poderemos pensar em propostas mais audazes. Por hora, e lembrem-se que não entendo nada de teologia, julgo que “Não matarás”, “Não adulterarás” e “Não furtarás” ficariam muito melhor nas paredes das pet shops do que “Não chamarás teu poodle de Ademir”. Mas é opinião de sujeito leigo.

Dito isso, é necessário acrescentar que não concordo com a hipótese geral do pastor: a de que ter o mesmo nome de um animal constrangeria as crianças em fase de formação. Primeiro que, vindo de uma instituição que tem feito vista grossa para coisas muito mais sérias (algumas também envolvendo crianças em fase de formação), esse argumento se torna, como posso colocar em termos razoáveis: uma baita asneira hipócrita! Além disso, eu acho que a maioria dos nomes causa muito mais constrangimento nos animais do que em nós. Lembro de um amigo da época de faculdade que tinha uma calopsita chamada Tina Turner e um gato que atendia pelo nome de Constantin Costa-Gavras. Assim, com sobrenome, hífen e tudo mais. Aí sim, estamos diante de um caso para igrejas e associações protetoras dos animais. Percebam a carga emocional, o peso ético e a responsabilidade estética que esses bichos levam nos ombros. É muita maldade!

E já que estamos encarando o assunto com a seriedade devida, por que não atacamos o problema na origem e proibimos de uma vez por todas alguns nomes de gente que estamos colocando em nossos filhos? Essa semana, na fila do pão, vi um pai tratar o filho de poucos meses por Dejair. Isso não é nome de criança. Olho para a cara do gurizinho e está claro que ele prefere ser chamado de Lucas, Felipe, Rafael ou até mesmo de Rex, não de Dejair, e não posso fazer nada a respeito.

Proponho então criarmos um projeto que estabeleça o seguinte: se uma pessoa quiser ser chamada de nomes como Adroaldo, Hermenegildo, Firmina ou Genoveva, basta procurar o cartório mais próximo no seu aniversário de sessenta anos, adquirindo, assim, pecha condizente com a figura. Se organizarmos direitinho, o nome novo pode vir impresso no primeiro contracheque da aposentadoria. O mesmo projeto deveria proibir o constrangimento dos que recebem nome em homenagem a personagens de novela da Globo e a jogadores de futebol. Se o pastor Reinaldo acha que um hamster chamado Miguel pode ser nocivo à sociedade, imagine o mal que milhares de crianças chamadas Geromel ou Sinhozinho Malta podem fazer.

Aproveito que estamos pondo o dedo inteiro na ferida para sugerir que tratemos também de resolver o caso dos indivíduos que têm a cara diferente do nome. Estou conversando com alguém que é claramente uma Priscila, Pâmela ou, no máximo, Patrícia, e ela se anuncia como Vera. Essas criaturas vão pelo mundo desconhecendo a própria identidade, já que os pais não tiveram a sensibilidade de batizar sua face com a alcunha apropriada. Imaginem se Leonardo da Vinci tivesse chamado a “Mona Lisa” de “Kátia Flávia”. Seria outra a história dos museus.

Isso sem falar nas Karinas com “K” que são meras Carinas com “C”; nos Affonsos com dois efes que, basta reparar bem na silhueta mirrada do sujeito, mal tem condições de aguentar um único efezinho em sua inexpressividade; nas Kellys que esbanjam dois eles em um mundo já tão desigual. Todas estas são questões muito mais importantes do que as propostas pelo pastor Reinaldo. Já não bastava retorno da Ku Klux Klan, das ditaduras militares e do seriado do Magnum, agora vamos ter que chamar nossos bichinhos por epítetos insensíveis como Bob, Duque, Xana e Lulu. Quem nos salvará disso?

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Foto de capa (Ilustração): Reprodução/petlove.com.br)

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