Minhas memórias daquele prédio da rua Joaquim Caetano. Por Cassiane de Freitas Paixão

Fazia tempos que eu não passava por aquela rua. Alguns motivos pessoais e de cunho político fizeram com que eu me afastasse de alguns lugares…

Mas passar ali foi uma boa recordação!

Entre os sete e os dezessete anos de idade foi aquele o colégio que frequentei. A camisa branca; o pulôver azul marinho, comprado no Uruguay para durar mais tempo; a saia que a vó fazia e ajustava com um colchete ao longo dos anos, assim como as marias-chiquinhas bem puxadas que mãe fazia e ajeitava com o laque carina, foram recordações quando me deparei com o prédio com resquícios de abandono, uma cerca na volta e muito matinho de rua ao redor.

Fiquei em frente por alguns minutos.

Publicidade

Frequentei uma única escola em Jaguarão. Era perto da minha casa, eu podia voltar sozinha. Um prédio alto, com escadas de madeira que me fazem lembrar do barulho de nossos sapatos subindo em fila. “Não é para conversar na fila!”. Eu sempre tinha muita coisa para conversar e isso me fazia subir e ter que descer de novo. “Desce e sobe em silêncio!”

Minha primeira professora tinha uma dinâmica peculiar. Copiávamos o que estava no quadro da frente, no quadro de trás, o que ficava nas nossas costas, e para continuarmos a tarefa ainda tinha uma porta de latão preto. Nos tornamos tão dinâmicos, que até hoje tenho a certeza que minha agilidade na escrita nasceu nesse processo.

Duas diretoras da escola moravam na mesma quadra da minha casa. Uma ou outra vez eu ia com uma delas para a escola. Aquilo era como se fosse uma extensão da minha casa.

A saída das 17 horas e 30 minutos era perfeita para ir até a pracinha. “Mas cuida o uniforme para não sujar!”

Os anos se passaram e eu fui estudar nas salas maiores, mais antigas. O piso de madeira sempre rangia. Os namoros eram sempre analisados por aqueles que ficavam no pátio cuidando do recreio. As conversas e nossa interação passaram a ganhar novos grupos. Já tínhamos muitos professores e nos preparávamos para fazer contabilidade ou ppt, Técnico em contabilidade e o curso de preparação para o trabalho, mais entendido como preparação para o vestibular, eram as alternativas para quem fosse fazer o ensino médio na cidade. Ali ficaram só os que, na sua maioria, almejavam o trabalho logo que terminasse o colégio. O ppt era em outra escola.

Aqueles que aspiravam ir mais longe já se preparavam para ir para a Escola Técnica em Pelotas. Mas isso era uma oportunidade econômica e educacional para poucos.

Lembro-me de uma professora que chamou minha mãe na escola para conversar se eu ia fazer a prova para Pelotas. Nossas possibilidades na família não tinham ainda essa projeção, mas plantar a confiança em uma adolescente de 13 anos pode ser uma boa projeção para o futuro!

E pra mim foi isso.

Nesse prédio, passei por salas com professores e professoras que me incentivaram. Um deles me deu aula particular de francês, em outro período, porque acreditava que eu conseguiria aprender outras línguas. Outra projetava minha profissão na área do Direito quando me entregava as provas e mostrava que eu entendia  da legislação que estudávamos.

Nada disso me afastou dos bailes do Caixeral, dos domingos no clube 24 ou do mate na praça. Mas foi no prédio da escola Carlos Alberto Ribas que eu aprendi que estudar e confiar em minha educação poderia me levar para além da escola e da cidade.  Meus professores e professoras me instigaram a visitar e andar entre a filosofia, a sociologia e o mundo!

______

Cassiane de Freitas Paixão é professora de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande – Furg. Socióloga pela Universidade Federal de Pelotas – UFPel e pós-doutora na Universidade Federal da Bahia. Jaguarense, do início da Avenida 27 de Janeiro, que dançou muito no carnaval e que tomava mate na praça.

(Foto de capa: Créditos de Diarios de la Pampería)

Publicidade/Apoio cultural

_____

Mensagem do editor:

Textos e imagens de propriedade do Diarios de la Pampería podem ser reproduzidos de modo parcial, desde que os créditos autorais sejam devidamente citados.

Comuniquem-nos de possíveis correções.

clique na imagem

Deixe um comentário