Eu só queria pagar minhas compras e sair, mas, quando estamos em uma fila, as coisas nunca são tão simples. Nelas, você é obrigado a se relacionar com o outro, sentir seu perfume, observar seus sapatos, seus anéis, sua maquiagem pesada e, claro, ouvir suas histórias. Diante de mim, na fila do supermercado, estava um casal de idosos que discutia. Pelo que pude perceber, começaram discordando a respeito do preço de uma embalagem de iogurte, debate que foi crescendo, envolvendo outros temas enunciados com cada vez mais fúria, culminando no momento em que ela, já sem qualquer discrição ou paciência, gritou: “E para de espalitar estes dentes, Zé!”, arrancando da boca do sujeito, que escarafunchava seus molares desde o início da cena, um umedecido palito, representante dos centímetros finais de sua dignidade. Depois do enxovalhamento, apenas o silêncio constrangido dos que protagonizaram a cena e dos que a assistiram.
Após um instante de empatia pela situação de ambos, ensimesmei-me. Aquela censura destinada ao seu Zé, podia-se perceber no tom usado por sua companheira, era fruto de um longo tempo de julgamento, repúdio e mágoa guardada. Poderia ter começado talvez naquela ocasião, há 30 anos, em que o seu Zé conheceu os pais da sua futura cônjuge e, depois de se empanturrar de arroz branco com estrogonofe e servir-se de generosa porção de pudim de leite, improvisou uma pequena sinfonia, cavoucando as gengivas em plena sala de jantar para desespero de sua prometida.
Ou então, quem sabe, tudo começou naquele Natal, vinte anos atrás, quando, ao convidar o chefe para cear em sua casa, depois de um ótimo papo sobre o bom andamento dos negócios, a flutuação favorável do mercado, a seleção brasileira, a criação da ovelha Dolly, o fim do império britânico (entre outros fenômenos que, como a Wikipédia acaba de me lembrar, rolavam naquele período), seu Zé tenha decidido esgrimar contra o cálcio de seus caninos na frente de todos, ocasionando a perda da intimidade com seu superior, o final da parceria financeira, e, vá saber, a derrota na copa de 1998 e o abandono das pesquisas sobre a clonagem humana.
Ou teria sido algo ocorrido naquela mesma manhã, quando a companheira do seu Zé recebeu as amigas do clube de leitura recém inaugurado, só para ver o protagonismo de seu chá de Hibisco e das suas torradinhas com mostarda Dijon, ser roubado pelo espetáculo dado por seu Zé, sem camisa na cadeira de balanço, futucando, com ruído inorgânico, as sobras do churrasco em seus incisivos, ofuscando os enredos de Jane Austen sobre a mesa.
Tudo isso era possível. Nós, homens, sabemos que sim, posto que, diferente das mulheres, não temos mostrado muita vocação para viver em sociedade nem para ajudar na sua evolução. Se vivêssemos apenas dentre os pares dotados do cromossomo “Y”, teríamos descoberto o fogo para o churrasco, inventado a roda para transportar alguns quilos de carne com facilidade e faríamos da lã das ovelhas cuecas e moletons, ou seja, o mínimo para viver nesse eterno domingo patético que chamaríamos de vida.
Esta era a causa da minha preocupação após assistir à briga dos velhinhos. Será que a Lu, com quem sou casado há quase dez anos, nutria ou começava a nutrir um ódio silencioso em relação a alguns de meus hábitos? Sim, eu não espalito os dentes, não uso Crocs, nem ando de moletom, mas o homem de Neandertal também não e o encontraram lá na Bélgica, esquecido, petrificado no calcário pelo olhar da esposa, pois, provavelmente, mastigava de boca cheia, catava piolhos na frente das visitas, deixava a toalha molhada no chão da caverna, entre outros costumes questionáveis.
Será que a Lu se ressente quando quer ver filmes franceses da década de 40 e eu estou assistindo a um documentário sobre babuínos no National Geographic? Será que a envergonho quando escuto um álbum do The Who e batuco em uma bateria invisível como uma criança que mal desenvolveu suas habilidades motoras; ou quando tomo banho cantarolando um clássico malicioso do Sandro Becker? Será que, daqui a 30 anos, ela me jogará o conteúdo de um carrinho de compras no rosto, enquanto brada: “E para de abrir esse pacote de biscoitos, Daniel!”, pondo abaixo anos de afeto e cumplicidade? Eu, que só queria pagar e sair, tive que fazer muito mais. Há que se esforçar sempre. Continuamente. Extrair o Rodrigo Hilbert de dentro deste Maguila que assombra nosso espírito. Eu só queria pagar e sair, mas a vida a dois exige ir além. Exige que peguemos a roda, o fogo, a lã das ovelhas, os palitos de dentes e, com carinho e cuidado, construamos um lugar de prazer e conforto para quem está conosco. E será recíproco. É isso, ou ver tudo desabar por causa de uma embalagem de iogurte. Vamos nessa, seu Zé. Vamos nessa, meu amor. Ah, e não esquece os biscoitinhos, por favor.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Imagem de capa: Reprodução)
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