O passinho. Por Daniel Baz

Não é a melhor sensação do mundo. Você está andando na rua com as suas caraminholas, pensando se trancou a porta de casa, se saiu do e-mail antes de desligar o computador do trabalho, se respondeu à última mensagem da sua mãe no Whats, enquanto tenta não se atrasar para o cinema combinado com os amigos, para o futebol no fim do dia, para o aniversário do cunhado, quando percebe que, muitos dos que vão pela rua, têm mais pressa do que você. Sim, aparentemente as demais pessoas também têm seus cinemas, futebóis e aniversários para ir. Entre elas, nesse desejo irrefreável de chegar logo aos seus compromissos, algumas tornam-se praticantes, conscientes ou não, do “passinho”.

Para quem não está ligando o conceito ao ato, chamo de “passinho” aquele hábito que alguns de nós têm de – ao perceber que o sinal fechou e não será mais possível atravessar para o outro lado da rua – dar um passo a mais, com a firmeza de quem encontrou um atalho nas regras da realidade, apenas para ficar ali, uns cinquenta centímetros para lá do cordão. O rosto do indivíduo ao realizar o feito revela que ele realmente vê vantagens nele, como se acreditasse estar mais próximo do futuro do que os cidadãos ao seu redor, e zombasse dos que esperam lá na calçada. Seu olhar de superioridade revela pensamentos terríveis: “Vejam, babacas, quando este semáforo ficar verde, eu logo estarei pagando meus boletos, chegando na reunião de pais e filhos, terminando uma peça para flauta doce e fagote, enquanto vocês estarão atrasados, perdidos e inúteis, engasgados com a poeira dos meus sapatos.”

Ver alguém executando o passinho diante de nós nunca é bonito. O sujeito está disposto a morrer atropelado por um ônibus da linha FURG em plena General Neto só para ganhar uns segundinhos a mais. Por causa dessa inconsequência, antes, quando eu via um cidadão aplicando a milenar arte do passinho, costumava ficar com muita raiva. Quer dizer que seria esse sujeito de gola rolê e meias beges quem pegaria o pacote no correio antes de mim? Seria esta senhora com óculos de grau altíssimos quem me roubaria os melhores lugares no cinema? Seria esta menina indiferente, mascando chicletes baratos e enrolando o cabelo no dedo com displicência, quem pegaria a primeira fichinha na padaria? Daí, quando a atendente gritasse: “número 2, por gentileza, número 2”, todos saberiam que eu não tenho fibra, que fiquei na calçada acovardado, vendo a vida passar, atrasado para o mundo, e nenhum feito meu estaria sincrônico com o andamento do resto do planeta. Jamais poderia resolver este descompasso. Todos os meus atos a partir de então, da minha aposentadoria à próxima consulta no dentista, dos meus sonetos ao nascimento dos meus filhos, estariam para sempre desatualizados.

A irritação foi dando lugar ao desapontamento e, por um tempo, aceitei o desafio dos apressadinhos. Mal chegava em alguma esquina, se via um dos praticantes do passinho pronto para iniciar sua marcha criminosa, concentrava-me como Usain Bolt antes da largada e saltava com esforço olímpico em direção à glória futura. Ficava admirado de me pôr em risco pela vida, me colocando em posição adiantada aos demais pedestres que, agora, eram todos considerados rivais. Pensava com orgulho: “quando eu estiver me entupindo de chocolates na Páscoa, meu adversário mal terá se recuperado da ressaca de Carnaval. Quando eu estiver vendo os desfiles de setembro, ele estará escolhendo presentes para o pai. Quando eu estiver pulando ondinhas, escolhendo uma confortável cueca branca, ajeitando um saco de lentilhas na carteira, meu oponente recém terá se recuperado de uma azia curtida a Chester ruim e panetone com frutas cristalizadas. Sim, pois eu terei, graças ao passinho, chegado antes no supermercado e levado o último Chocotone.

O mundo dividiu-se abruptamente entre os que exerciam as benesses do passinho e os otários. Bezerra da Silva certamente usufruía do passinho. Steve Jobs também. Shakespeare era um dos passistas mais célebres, ao contrário de Cristopher Marlowe. Mozart era um passista notório, diferente de Salieri. Chaplin, Balzac, Einstein, todos estes deveriam pertencer à longa tradição dos que têm autonomia e iniciativa e chegam na vida a passos largos, cientes do que é seu, antecipando tendências, prevendo caminhos. Vivi dias de glória, até perceber minha ingenuidade, quando notei que o passinho não é uma questão de personalidade, de decisão e coragem, mas um problema estrutural. É uma resposta corporal à vitória do sistema sobre nós. Conseguiram plantar em nossos músculos a semente do desespero, a avidez abstrata, o afobamento para nada, para lugar nenhum, a noção de que não vai dar mais, de que, ou corremos, ou estaremos, se já não estamos, condenados a uma vida sem realizações. Por isso, peço uma pausa nesta crônica afobada e os convoco. Vamos lá, todos juntos, um passinho para trás. Respiremos fundo, mais outro, para trás, mais um, tomemos um largo impulso; esta luta diária é de todos nós.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

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(Imagem de capa: Reprodução)

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