Acho que o que fez o sonho parecer mais real foi o fato de ter começado no momento em que eu acordava. Abri os olhos e vi o teto do meu quarto, senti o cheiro dos meus livros na mesa de cabeceira, a brisa da janela atrás de mim, as patas da gata sobre as pernas. Movimentei-me para sair da cama, mas, quando tentei colocar os pés no chão para ter impulso, caí. Não foi desequilíbrio, nem falta de cálculo ou de energia. Caí como se me faltasse convicção para ficar em pé. Como se não existissem provas suficientes para assegurar-me que eu conseguiria fincar as duas pernas no chão e me sustentar. Caí, porque não havia memória que me fizesse crer que um dia havia estado em pé, e tudo indicasse que eu não me bastava para me erguer. Caí, pois podia acreditar somente na queda e o chão era o único caminho plausível para meu corpo.
Ainda que eu não conseguisse meandrar como uma serpente, rastejar como um aracnídeo ou mesmo asfixiar à moda dos peixes, deitado no chão, com as mãos e os pés desestabilizados, não havia forma de entender de que maneira se organiza verticalmente um corpo. Parecia que este estirar inerte no solo era o único gesto viável, o único projeto ao qual meus membros poderiam se adaptar, a única função real da forma humana e antes que eu pudesse tentar resolver esta descompostura em minha figura e espírito, eu acordei. Abri os olhos e vi o teto do meu quarto, senti o cheiro dos livros na mesa de cabeceira, a brisa da janela atrás de mim, as patas da gata sobre as pernas, com a diferença de que, agora, tudo era real. Contudo, o efeito do sonho não se dissipara. Na verdade, por meio dele, parecia ter-se revelado uma verdade terrível: é impossível pôr uma pessoa em pé.
As pessoas não têm o desprendimento das árvores e dos edifícios para se deixarem solevar, não tem a decisão necessária para içar-se em definitivo. Para isso, criamos as hastes para velas e bandeiras, as torres de observação, os livros de capa dura, as igrejas góticas e os castelos. Colocar uma pessoa em pé, no entanto, é o ato suicida de alçar, num só arranco, suas pálpebras e cílios, o pigmento em seus cabelos, as vitaminas de suas lágrimas, o esmalte de seus dentes. Nada disso pode faltar se quisermos ter alguém decisivamente em pé.
Para pôr uma pessoa em pé é necessário pôr também em pé as suas unhas, os ossinhos do ouvido, o apêndice e o músculo do estribo. Levantar uma pessoa é suspender com ela as suas tatuagens, suas frases de efeito, suas mutações genéticas, os sonetos nos seus bolsos e seus ascendentes no zodíaco. Mas como equilibrar também, em uma única coluna reta, os plurais dos substantivos compostos, os pelos de dentro do nariz, o suor nas mãos, os aromas dos chicletes que se acumulavam na carteira da 3ª série, as gotas de bile atrás dos dentes quando sorriram tolamente diante do primeiro amor, a morte silenciosa de todos os bichos de estimação e os documentos plastificados?
E isso é apenas o começo do ato de pôr alguém em pé. Depois disso, é necessário ainda maior esforço para manter, por poucos segundos que seja, a pessoa inteira em pé. Estou querendo dizer que devemos ter o plano perfeito para não deixá-la cair, ainda que saibamos que isso é inevitável. Veja, jamais ousaríamos supor que é plausível manter Fred Astaire, Mick Jaeger ou Martha Graham em pé por muito tempo. É impraticável. Que força poderia suportar Charles Chaplin e sua bengala indiscreta, Marlene Dietrich e suas sobrancelhas irretocáveis, Fiódor Dostoiévski e suas olheiras de condenado, Franz Kafka e o hálito de seu pai sobre a nuca, Gary Cooper e sua mandíbula firme, Virgulino Ferreira da Silva, seus anéis e pontaria, Jerry Lewis e seus olhos galopantes? Impossível! Se há algo a que não é dado erigir-se é o ser humano. Nossa verticalidade é uma viagem vertiginosa e absurda. A pessoa em pé é o limite de toda religião, esse tecido poroso que mal nos cobre a visão, é o fracasso de toda política, é tirar da natureza toda e qualquer causalidade. Ao tentar pôr alguém em pé, somos obrigados a admitir que toda matéria é experimental, toda geometria é um acidente. Há no corpo um desejo de fugir-se. Pudesse, o coração não seria mais do que a barra de um vestido e as próprias veias pulsariam apenas as ruínas das flores e letras que escurecem fora de nós. Pôr alguém em pé, mesmo uma pequena criança, é aceitar novamente as utopias. Ao menos a utopia definitiva da pessoa em pé. Ao menos, a memória de que um dia fomos imensos. É disso que falam todos os livros, esses espelhos a sonhar nossas infinitas quedas.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Imagem de capa: Reprodução)
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