Quem me leu na semana passada, deve lembrar que eu estava nervoso. Então os cientistas resolveram se meter em território dos outros e criaram uma inteligência artificial capaz de escrever episódios coerentes de “Os Flinstones”. Parece que, na votação semanal entre a classe, este assunto venceu futilidades do tipo “a cura do câncer” e “o fim do aquecimento global”, nos deixando onde estamos.
O próximo passo natural é desenvolver trabalhos criativos ligados a outras formas de expressão, o que poderia indicar a paulatina substituição dos poetas, romancistas e cronistas por robôs, o que seria muito mais econômico e eficaz, posto que não há registro de inteligência artificial que peça pagamento adiantado, atrase na entrega da crônica ou erre concordância nominal. Tudo bem, as minha crônicas poderiam ser escritas pela I.A. de uma torradeira, mas quem redigiria os grandes sonetos, quem pintaria os murais revolucionários, quem picharia os muros se declarando para mulheres com o nome de “Rislayne” e “Wésleika”? Todas estas demonstrações da mais alta sensibilidade artística estariam com os dias contados.
Eu, que já estou tentando me adaptar aos novos tempos, pus-me na última semana a imaginar como a Craft poderia redigir obras literárias depois de dominar a prática de grandes escritores da literatura. Seguem algumas possibilidades:
– Um motoboy de nome Y se transforma em gafanhoto no meio de uma corrida, o que o deixa desesperado, já que ficou sem bolsos para as moedas facilitadoras do troco. O livro termina assim que percebemos que, ao invés de uma motocicleta, o sujeito vinha montado no seu próprio pai, um alcoólatra abusivo. (Franz Kafka)
– Uma igreja no interior de Portugal descobre que foi construída em um cemitério do partido comunista. Aos poucos, os santos reencarnam nos cadáveres dos revolucionários para lutar pelos direitos dos homossexuais, pela legalização do aborto, pela descriminalização das drogas, e pelo uso indiscriminado das vírgulas e das orações subordinadas. (José Saramago)
– Uma poeta não sabe se bebe o copo d`água sobre a mesa ou se rega, com ele, os gerânios. Quinhentas e dezessete páginas. (Clarice Lispector)
– Um chapéu sofre um ataque cardíaco no dia em que contrairia bodas com um filhote de anão de jardim. As coisas começam a dar errado no instante em que a marquesa da galáxia de Pandora ¾ descobre as finalidades terapêuticas da limonada de alface. (Ionesco)
– Um mago que acredita em lugares comuns começa uma longa viagem em busca de um clichê. Ao fim, descobre que o destino não importa, mas a jornada; unindo, assim, um lugar comum a um clichê. (Paulo Coelho)
– Um homem bêbado, em fase avançada de Alzheimer, observa pela última vez o pôr do sol e tenta retê-lo na memória. A cena é narrada pelo seu chaveiro e pela tampa do seu condicionador. (William Faulkner)
– Um detetive particular é contratado para encontrar um tigre fugido do zoológico. O animal tem um desenho em suas listas negras que lembra um labirinto, uma velha edição de Kipling ou a silhueta do Boris Karloff. Depois de vagar por bibliotecas, palácios, mausoléus e um camarote da Brahma, o protagonista já não sabe se a sua busca é real ou está sendo sonhada por um unicórnio com talento para escritor de romances policiais. (Jorge Luis Borges)
– Um homem com uma ninhada de cangurus nos bolsos viaja para Buenos Aires em busca de uma salamandra, pois é seu aniversário. Em uma pet shop, desconcerta-se com a tranquilidade com que o dono veste os bichos como se fossem grandes estrelas do jazz. Os leitores não percebem que é uma história de amor. (Julio Cortázar)
– Uma mulhêmure, espírito antiquíssimo com corpo de lêmure e alma de miss Nigéria, intriga os pescadores antiquíssimos de uma aldeia antiquíssima em Moçambique. Depois de muito fornicarpir com os aldeões e abraçonhar seus corpos, decidem sobreviviajar para o mundo antiquíssimo de seus ancestrais, onde devem enfrentar as milenares Mulesma (entidade com cabeça de mulher e corpo de funcionário dos correios) e Mulata (entidade com corpo de mulher e cabeça de ata de reunião de condomínio). (Mia Couto)
– Uma adolescente se apaixona pelo Pitbull do vizinho, causando ciúmes no seu Chihuahua, Lauro. A normalidade é perturbada com a chegada de seu enteado e seu animal de estimação, um Husky Siberiano de nome Ademir, perturbadoramente parecido com Alain Delon. Todos morrem de asfixia auto-erótica (Nelson Rodrigues)
– Um homem beberica um copo de Coca Zero em um bar enquanto rememora as brincadeiras da sua infância, que terminavam, fatalmente, bebendo o refrigerante ao lado dos amigos. Trezentos e sete capítulos depois ele exclama ao garçom: “- Gelo e limão, por favor!” (Marcel Proust)
Com estes exemplos inacabados, demonstro que estou me preparando para a dominação. Quando as máquinas subjugarem nossa cultura, eu já estarei mais do que adaptado. Sugiro que façam o mesmo.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Imagem de capa: Reprodução/Site: Centro de Referências em Educação Integral)
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