Quem tem a oportunidade de visitar o atelier da artista visual Mara Soares, instalado ao fundo de sua residência no bairro Vencato, em Jaguarão, pode perceber-se dentro de um ambiente distinto, particular. Ao menos foi o que o repórter sentiu quando pisou dentro de um espaço parecido com o de um aquário de espécies botânicas, no caso, com uma atmosfera mística de incenso e música de Mozart no ar. Não que não exista verde ali, pois há, além de um aparato característico a de uma oficina artística e, claro, num cenário que contempla ainda um conjunto de quadros – em desenvolvimento – de pintura de telas à óleo e demais objetos. “Aqui eu passo a maior parte de meu tempo”, diz a artista, a respeito do lugar onde ela pinta quadros e pedras, além de fazer arte em cerâmica. “Antes o atelier era a casa toda”, ela conta indicando a sua residência logo à frente e convidando o repórter a se acomodar no atelier em um acento para um bate-papo agendado para uma tarde de uma quarta-feira de sol.
Natural de Jaguarão, Mara é casada com Luiz Augusto, o Guto, tem dois filhos, Monique e Kaufer, e um neto, Kauã. Tem contato com arte desde os 9 anos, quando começou a desenhar em um tapete da sala da família. Depois que a elogiaram, ela conta, não parou mais de desenhar e a desenvolver novos traços. O hábito e a desenvoltura com que foi praticando a arte do desenho levariam a aperfeiçoar técnicas e, anos mais tarde, iniciar estudos universitários. Mudou-se de Jaguarão para Pelotas, ingressou no curso de Artes Visuais da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), onde “aprenderia muito” sobre História da Arte e conheceria teorias fundamentais para a compreensão das produções artísticas e de humanidades. O francês Maurice Merleau-Ponty é um dos pensadores sobre o qual ela cita e que é por Mara considerado um norteador de suas reflexões. O que de algum modo lhe daria base de compreensão para o seu chamado ato criador e a sua visão de “arte”.
De volta à sua cidade natal, após aprender a pintar em aulas com a professora Tilde, em Pelotas e no período pós-UFPel, Mara afirma que a arte para ela é “transbordamento”. “Transbordar, por para fora”, ela explica, apontando a arte como a um ar que cotidianamente se respira: “Eu respiro por ela”. Tem como referência Salvador Dali e o que ela chama de “admiração” pelas figuras de Frida, Leonardo Da Vinci e Michelangelo. Nomes que explicariam o fato dela gostar mais de arte expressionista do que da acadêmica ou clássica, por exemplo.
Mara costuma reservar as segundas, terças, quartas-feiras e sábados para as suas produções artísticas. Na quinta e sexta-feira, ela atua como terapeuta; atende clientes por via da terapia cognitiva, que visa estimular nas pessoas o pensamento sobre si. “Os domingos eu tiro para ficar com meu esposo”, acrescenta. No entanto, o aparente regramento e organização de cotidiano não impede de Mara acordar no meio da madrugada com vontade de pintar. Com a curiosidade de quem normalmente, como ela diz, “não saber o que exatamente pintar”. Talvez seja por este motivo que ela diz não gostar de produzir arte sob encomenda. Quando aceita alguma encomenda, costuma saber do cliente o que este costuma fazer e o que gosta de ouvir. “Acontece de eu pintar ouvindo as músicas que algum cliente que me pede encomenda gosta”.
Sob uma determinada ótica, a pressão do tempo não deveria se sobrepor ao ato criador do artista. O ato criador de Mara, aliás, tende a se alinhar à ideia de inspiração e relação direta com o mundo onde se vive ou o universo que lhe cerca. “Não gasto o meu tempo com coisas que eu considero artificiais”, diz. A sua atenção, a artista aponta, “está mesmo nas coisas que não estão no óbvio”. Neste sentido, o atelier de Mara funciona como um lugar mais que especial, se aproxima a de uma espécie de habitat e ambiente de vivência diária.
Mara não esconde que leva uma vida distinta e que a sua vida possui um contorno “religioso, com Deus, com o universo”. Tal como a maioria dos artistas, ela possui as suas particularidades. Conta, por exemplo, que gosta de pintar com o auxílio da lupa, por gostar de “ver as minúcias”. O seu olhar pessoal, aliás, parece mesmo não se distinguir do “transbordar de suas artes”: “Para mim, a arte é um espírito. E me relaciono com este espírito”, resume ela, que revela ter uma rotina de dedicação às suas artes e sentimento de vida por seu próprio mundo.
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Texto do Diarios de la Pampería originalmente publicado – em parceria – no jornal Só Cultura – edição de abril de 2019.
(Imagem de capa: Créditos de Diarios de la Pampería)
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