Nada contra a tecnologia, desde que não me torne obsoleto. Por Daniel Baz

Geralmente quando temos que dizer uma ou duas palavras em favor da humanidade, algo que está ficando cada vez menos frequente, somos socorridos por nossos artistas. Dizemos: “Sim, alguns de nós arquitetaram o Holocausto, mas outros foram capazes de pintar os girassóis, a catedral de Rouen, a ronda noturna”. “Sim, inventamos a burocracia, o napalm e a conjugação do verbo intermediar, mas também escrevemos ‘O poema em linha reta’, ‘As flores do mal’ e ‘A terra desolada’”. Para cada guerra, uma canção do Paul McCartney; para cada cidade sumida na radiação, um filme do Fellini. A capacidade de criar todas estas coisas é algo que não só nos define, como, muitas vezes, nos redime. Foi principalmente por isso que me causou arrepios certa notícia divulgada por alguns jornais nas últimas semanas.

Vários periódicos apresentaram a Composition, Retrieval and Fusion Network, a Craft, inteligência artificial que teria sido capaz de criar episódios do seriado de animação “Os Flinstones” depois de ter assimilado 25 mil vídeos do desenho, captado as estruturas dos roteiros e a personalidade das personagens com uma precisão nunca antes vista. Tudo bem que não estamos falando da Nona Sinfonia ou de um episódio de Twin Peaks, mas ainda assim se trata de um feito espantoso. Até então tínhamos a exclusividade de sermos os únicos seres dotados para desenvolver enredos que envolvessem telefones-pterodátilos e caminhões-tiranossauros-Rex, algo que certamente nos dignificava entre os grandes feitos do universo. Não mais.

A primeira pergunta que me vejo obrigado a fazer em relação ao experimento envolve justamente o seriado escolhido para ser apresentado à máquina. Não havia nada melhor, não? Percebam que a tal inteligência artificial vai pensar que somos um bando de broncos a vestir peles de animais, andando em carros com buracos para as pernas, prendendo as melenas com ossos e puxando as mulheres pelos cabelos, como se vivêssemos no Facebook de um eleitor do Bolsonaro. Os demais, que estão um pouco mais acostumados com a cultura e com a civilização, irão pagar caro por este erro. Não demora para a Craft nos julgar ineptos para tudo, esticar suas asinhas digitais e tratar de se envolver com outros tipos de linguagens, partindo para a poesia, pintura, cinema e aqueles desenhos de paisagens no grão de arroz, tão comuns nos balneários do mundo todo.

Não vejo problemas em pedir para um androide qualquer que reescreva o final de “Lost” ou as letras do Jota Quest, mas temos que estabelecer alguns limites. Nada contra a tecnologia desde que não me torne obsoleto. A Capela Sistina além de tinta, tem muita sensibilidade e bom senso em seu teto. Como entregar uma responsabilidade desta monta a um Ipad? Ninguém em sã consciência esperaria que um eletrodoméstico tivesse o talento de escrever “A rosa do povo”, ou um álbum do Pink Floyd. O meu celular não sabe sequer diferenciar uma mensagem do trabalho de um coração rosa no qual minha tia escreveu “Boa noite!” no WhatsApp. Percebem o perigo?

Não fossem todas essas questões práticas, a notícia nos deixa às portas de duas discussões éticas que podem abalar as estruturas econômicas, morais e sociais de nosso mundo. Os computadores já estão tirando os nossos empregos. Agora também vão roubar o único ofício ao qual podemos nos dedicar sem a pretensão de ganhar dinheiro, ou seja, a arte? Não fosse toda a dificuldade que um poeta, músico ou escultor enfrentam para fazer seu trabalho, enquanto tentam garantir comida, moradia e vestuário, agora terão de competir com entidades que não precisam se preocupar com nada disso? Alguns poderiam dizer que são esses inconvenientes que inspiram o verdadeiro artista, ao que qualquer inteligência artificial poderia replicar que, pelo menos, suas calças e sapatos estão em bom estado. Como vencer um argumento desses?

E, para não dizerem que sempre jogo contra os computadores, tenho a obrigação de denunciar o problemão que criaremos dentre as gerações das futuras inteligências artificiais. Pensem em um sistema operacional que criou seus descendentes para a advocacia, esperando que seus programas e aplicativos contabilizem laudos, organizem processos e ajudem na redação de leis e minutas, para ter o desgosto de ver seus rebentos se metendo no vergonhoso mundo dos artistas, escrevendo desenhos para a televisão ou romances regionalistas para grandes editoras.

Imagina o ressentimento de programas dedicados à engenharia e à medicina, ocupados a vida inteira em construir prédios e curar doenças, sendo obrigados a assistir, nas gerações seguintes, seus dados sendo usados para compor haicais ou redigir roteiros de filmes independentes que só passam em Sundance. Será o fim dos tempos. Os computadores jamais aceitarão trabalhar ao nosso lado novamente e se exilarão para sempre nas suas Cancuns e Ilhas de Caras virtuais. Isso se não decidirem de vez nos destruir. A questão é tão complexa que rende muito mais assunto, mas deixarei para semana que vem. Isso se o “Diarios de La Pampería” não me substituir por um aplicativo que escreva estas crônicas em meu lugar. Quem perceberia a diferença?

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Imagem de capa: Reprodução//Thinkstock/muratsenel/Thinkstock)

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