Capitão, a companhia “Tem que acabar com isso daí!” do Exército Brasileiro acaba de chegar na Venezuela, sob as ordens de preparar o terreno para o conflito contra o governo comunista do ditador Nicolás Maduro. Somos muitos, graças ao sucesso da campanha “I want you, is this ok?” inspirada, como tudo que o senhor faz, na estratégia de recrutamento dos Estados Unidos. A viagem foi tranquila, ainda que tenhamos cruzado com território Yanomami na fronteira. Ao contrário do que pensávamos, não foram encontradas camisetas do PSOL nem santinhos do Guilherme Boulos em posse dos selvagens. Contudo, um dos nossos tenentes jura ter visto o Eduardo Suplicy de cócoras fumando um cachimbo com o pajé (provavelmente algum parente da Sônia Guajajara). A informação já foi devidamente publicada no Twitter do Carlos, digo, no seu Twitter.
Logo que cruzamos a fronteira, encontramos alguns sobreviventes das companhias “Vai pra Cuba!!!” e “Primeiro tiramos a Dilma…”, pioneiras na expedição em solo inimigo. Em um território com internet precária como este, no qual não é possível atualizar o WhatsApp com muita frequência, nem assistir aos vídeos do guru Olavo de Carvalho, ficou difícil para nossos soldados terem sua dose diária de nutrientes, o que provocou o óbito de muitos. Os remanescentes foram salvos pela companhia “Nossa bandeira jamais será vermelha!”, que, engenhosamente, tinha em suas mochilas fotos do Emílio Garrastazu Médici e do Donald Trump, o que trouxe a vitalidade de volta a todos.
É necessário informar que, mal entramos no país, tivemos algumas surpresas. Diferente do que pensávamos, nem o Wagner Moura nem o Jean Willys vieram pra cá. Aquele boato de que um lote com todas as mamadeiras de piroca e Kits Gay das escolas haviam sido enterrados no Orinoco, também está se mostrando improvável. Por via das dúvidas, estamos patrulhando a região com cães que tiveram acesso às roupas de baixo do Fernando Haddad (itens que fizeram sucesso no pelotão, não sei bem o porquê). Estamos confiantes.
Descobrimos também que, aparentemente, o Lula não nasceu aqui, o que só prova nossas suspeitas iniciais: ele nasceu em Havana e perdeu o dedo cortando charutos para o Fidel Castro. Já a Gleisi Hoffmann, como informa o WhatsApp da companhia “Moro, herói do Brasil”, seguramente foi gestada em um acampamento de Icabarú, onde os nativos, antes de aprender a falar, já sabem cantar a Internacional e pentear o bigode à moda do Lênin. No mais, ao contrário do que tínhamos anotado em nossas pesquisas preliminares, a capital do país não é Buenos Aires, o que impossibilita o uso dos panfletos: “Abaixo a Venezuela! Maradona cheirador!”, que imprimimos com a verba destinada às provas do ENEM. Com relação à fauna local, é aquilo mesmo que imaginávamos. Um bando de macaco, onça, jaguar, tudo solto, pelado e livre, como se estivessem no Dark Room da Globo, atitude certamente aprendida com os livros do Paulo Freire. As companhias “Em 64 é que era bom!” e “Ame-o ou deixe-o!” estão tratando os animais com vídeos de coaching narrados pela Regina Duarte e gráficos de powerpoint concebidos pelo Dallagnol.
Preciso confessar que nossos soldados estão um pouco desanimados, capitão. Ficar no meio da selva é coisa de comunista, não de cidadão de bem. Para piorar, os venezuelanos estão vacinados. Não damos conta de tanto mosquito e virose. Nem os vídeos do Frota têm mantido o pessoal pra cima. Nem as músicas do Roger ou as piadas do Danilo parecem boas ou engraçadas. À noite, nos reunimos para contar histórias, mas elas estão ficando repetidas. Todos já sabem que a Dilma Roussef criou a primeira unidade paramilitar das FARC, e que o Gregório Duvivier trocava de Iphone mensalmente com dinheiro da Lei Rouanet, e que os dois prêmios Nobel dados ao Stálin, cujas medalhas foram forjadas com ouro extraído de uma das fazendas do José Mujica, foram financiados com desvios da Petrobrás. Não demora muito, ficamos entediados. Até porque fica difícil de se comunicar sem ter que bradar “Fora PT!” ou “E o Lula?” a cada frase. Se for possível, envie histórias atualizadas sobre Carlos Marighella e seu papel no Terceiro Reich. Não fossem os inúmeros parques nacionais para capinar e varrer, muitos teriam voltado ao Brasil e se filiado ao PDT.
A companhia “Mito” ainda está perdida na floresta, sendo procurada pela companhia “Deixa o homem trabalhar”. Confesso que são contingentes que deixaram a desejar. Parecem ter sumido de propósito, capitão. A teoria mais em voga é que tenham sido raptadas pela Manuela D`Ávila, quem, segundo fontes confiáveis, lidera um exército de feministas no interior da Amazônia venezuelana ao lado da Maria do Rosário, da Pablo Vittar e da Madonna.
Ansiosos para voltarmos a esta terra que um dia já foi grande (Ah, Garrastazu!), aproveito para mandar as encomendas pedidas por todos. Achamos as goiabas para a Damares (as indiazinhas, infelizmente, já foram todas adotadas), dicionários espanhol-português, português-espanhol e espanhol-portunhol para o “Veléz” (o de português que o Moro pediu, estava em falta), além de documentos atualizados sobre o fenômeno” La lluvia dorada”, que parece ser um ritual típico de Puerto La Cruz em homenagem a Mao Tsé-Tung. Espere novidades em breve.
Ps: Ouvimos boatos de que o Veléz caiu. Se for o caso, fiquem os dicionários de espanhol também para o Moro. Nos três anos em que ele fez mestrado e doutorado, pode ter faltado tempo para a proficiência.
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
(Imagem de capa: Depositphotos/Reprodução)
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