Hoje não tem crônica. Por Daniel Baz

Sim, você leu direito. Não, hoje não tem crônica. Não haveria condições mínimas para tê-la, enquanto esse espanto não tiver ritmo de palavra, nem a densidade para o escuro côncavo da letra, nem a harmonia mínima para a sintaxe. Enquanto a moral for esse artifício de encomenda, ou melhor, apenas esta forma inata de repouso, o pastiche do sonho, e que não pesa mais do que um sussurro e que não se desdobra mais do que um guardanapo, não será possível ter fôlego para narrar a entrada das estações, os chistes involuntários de padaria, as conversas dos operários ou tudo aquilo que os cronistas fingem que lhes interessa.

Olho pela janela do ônibus. Observo aqueles que, como eu, voltam do trabalho. Somos todos uma mesma superfície mal evoluída de pele, um mesmo sacrifício inútil do carbono, uma inconfundível vulgaridade de água e sal. No que estarão pensando esses que, como eu, não sabem exatamente se partem ou se chegam? Pois, enquanto houver esta dúvida, enquanto amargarmos esta confusão de não sabermos se deixamos ou voltamos à casa, enquanto essas longas rotas não forem viagem, e consultarmos o relógio não sob o ponto de vista matemático, mas metafísico, como quem escrutina uma janela só de ida, não me peçam que escrevam esta crônica. Vá conferir o horóscopo, os classificados, o clima. Vá ler as notícias. Tenha coragem! Não venha fugir do mundo nestas ficções pouco inspiradas. Hoje não vou preparar nada para seu contentamento. Não tem crônica.

Não me julguem, naturalmente, pela preferência de não fazê-lo. Não estamos todos paralisados diante de pórticos sem ornamento? Não nos aleijaram o sorriso e as mãos? Não abdicamos todos da loucura em prol da morte? Não estamos sistematicamente trocando a perplexidade pelo esquecimento, ou pela vaidade, ou pelo trabalho, ou, pior, pela nitidez de tudo? Sim, pois chegamos em um momento em que só nos importa a nitidez de tudo. De que adianta que eu escreva uma linha sequer sobre a chuva rala da última quinta-feira abafada, sobre a imprevisibilidade dos esportes coletivos, sobre as roupas na máquina de lavar, sobre o dinheiro achado na bermuda velha, sobre os descontos do supermercado? Nada. Não busco sequer a metalinguagem. A razão como negação da coisa em si é tão cruel quanto a mentira. A razão como a distância menor entre dois pontos é um anacronismo. Não tem crônica.

Não estamos mais talhados para isso, afinal. Hoje, só temos disposição para a verdade. Mas a verdade é um acordo e, geralmente, fatal. A verdade não é mais um conceito ou um estado, mas um motivo. Algo que se possa atirar ao rosto dos que têm fome e não tem culpa, algo que explique os hematomas nas mulheres, a malcriação das crianças, o comprimento das filas, a demora dos tribunais, a úlcera dos aposentados, as lesões dos homossexuais, o salário dos negros; algo que nos console quando estivermos com medo, quando temermos a variedade das opiniões, dos credos e das espécies; algo que disfarce nossa incontornável vulnerabilidade. Em tempos assim, a verdade nunca salvará ninguém de nada. Converte-se antes em uma forma de poder, origem de toda causalidade, e servirá apenas de vingança contra os que ousam duvidar.

Pois, enquanto cismarmos que o possível já não precisa de ajuda, insisto em repetir que hoje não tem crônica. Sim, posto que o possível é justamente aquilo que precisa de reparos. Visto que a mímica verbal perfeita para aquilo que já sucedeu é o silêncio; o silêncio artificialmente exposto depois de muita dor e ponderação; já que todos defenderão o real contra o que é justo; enquanto o que aconteceu apresentar a pureza das coisas automáticas e não desconcertar a memória, não haverá crônica. Assim construiremos a história futura. Como se não tivéssemos desejado outra.

Hoje não tem crônica, não por falta de assunto, não por ambições de intertextualidade, não por conta da conjugação dos verbos, não pela vida que acontece lá fora ou pela caridade das horas. Hoje não tem crônica em celebração à letargia geral. Peço licença para representar o torpor, a inércia, o sopor geral e fantasiar minha definitiva página em branco. Não aquela idealizada por Mallarmé, mas a primitiva violência de não querer propor nada, de estar a salvo da solidão que é dizer. Sim, hoje não tem crônica e, no entanto, aí está. Acabo de me tornar responsável por uma ordem que não queria criar. Mas assim estamos todos. Hoje, 12 de julho de 2017, Brasil, e assim estamos todos.

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

(Imagem de capa: Reprodução)

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