Cada semana que passa, quando entro na pet shop aqui da rua com o objetivo de comprar comida para minha gata, Kaoru, eu me sinto mais perdido. Quando o anglicismo substituiu a boa e velha “Casa de ração”, acompanhando as world tendencies, da mesma forma que Superman desbancou o bom e velho Super-homem e a Wanessa Camargo virou só Wanessa, eu sabia que teríamos uma transformação ontológica no mundo dos petiscos. Mesmo assim, nada poderia me preparar para o que estava por vir. Salvo engano, a primeira vez que percebi haver algo de podre no reino dos caninos e felinos foi quando me pus indeciso entre um pacote de patê para gatos cujo sabor fora batizado de “Dreams de queijo” e outro que atendia pela alcunha de “Salmão ao molho com espinafre”.
Demorei muito para perceber o ridículo de estar ali, parado com uma das mãos no queixo e outra na cintura, ponderando entre as duas iguarias como um confuso Salomão, caso Salomão lidasse não com o esquartejamento de bebês, mas com algo muito mais grave: a satisfação de uma gata metade siamês, metade brasina. As informações nos rótulos, que deveriam nos ajudar nestas horas difíceis, só servem para deixar tudo ainda mais obscuro. A começar pelas recomendações que grassam nas etiquetas. Em um sachê, por exemplo, havia a inscrição: “USO PROIBIDO NA ALIMENTAÇÃO DE RUMINANTES”, o que deve frustrar aquelas pessoas que pretendiam alimentar a vaca em seu quintal com duzentos pacotinhos diários.
Outra das embalagens apresentava o maior sucesso dentre detergentes e garrafas de água sanitária: “Não destinado ao consumo humano”; e eu peço aos leitores que reparem no caráter muito mais flexível desta instrução em comparação com aquela endereçada aos ruminantes. Na tentativa de se destacar em meio à ampla variedade de opções, os produtos apostam ainda na precisão e refinamento. Nesta linha, uma latinha de ração garantia ser feita “somente com frangos selecionados”. Larguei-a de volta na gôndola, aturdido com mil suposições acerca dessa rigorosa seleção. Há profissões estranhíssimas no mundo, mas a do sujeito que passa seus dias a especular a penugem, a maciez, o peso e, vá saber, o carisma de um galináceo para, ao fim do dia, determinar “Este vai para a Whiskas”, está entre as mais insólitas do mundo.
Alguns dos lanchinhos, por outro lado, prezam pelo requinte de seu conteúdo, como aquele que informa ser “crocante por fora e macio por dentro”. Um esmero inesperado para agradar um bicho que costuma ser visto mastigando caixas de papelão, tampas de Pinho Sol e cadarços de sapatos velhos. Isso quando não está lambendo as regiões menos culinárias da própria anatomia. Havia um manjar recomendado especificamente para “gatos indoor”. Achei esta distinção um disparate. Eu, que sou um “cronista indoor”, tenho comido sem reclamar tudo o que me servem nos buffets e fiquei preocupado se isso pode estar impactando a minha saúde, talvez levando-me a deixar mais vezes o conforto da minha casa e me tornar um melancólico e subnutrido “humano outdoor”. Até mesmo rações para gatos veganos já existem, o que acho muito justo, mas fica um alerta: quando aparecerem gatos com coque samurai, montados em bicicletas de bambu e ouvindo “Apanhador só” ou “Bon Iver” em seus discmans, não fiquem surpresos.
Todos estes artigos eram apresentados em várias versões como “silver”, “gold”, “premium”, “superpremium”, com “molho mais encorpado” e com “essências botânicas como chá verde, alfafa, aloe vera e psyllium”, como minuciava um potinho de patê para gatos adultos. E eu comendo cream cracker vencida com suco Clight. Encontrei também descrições que falavam em grãos grandes, pequenos ou médios, sem corantes, arredondados, agudos e com transgênicos, estes não recomendados caso o gato seja de áries, mas super indicados para os que tem um olho de cada cor. Os valores energéticos no verso das embalagens asseguravam possuir vitamina A, B, C, Cálcio, Selênio, Manganês, Cobre e uma dezena de outras substâncias que, além de desconfiar de que tenham sido criadas por James Joyce, jamais estiveram em meu corpo.
Por mais que eu queira o bem-estar da Kaoru, era difícil acreditar em coisas do tipo de: “Cereais ancestrais de baixo índice glicêmico”. Ancestrais?! Como se fosse fazer alguma diferença encher o pratinho dela com grãos que datam da dinastia Ming. No mesmo pacote, ainda era possível ler as seguintes informações: “Produtos saudáveis que aliam alta tecnologia a ingredientes inovadores”, “Alta palatabilidade que satisfaz apetites mais exigentes” e “satisfação garantida durante a fase de crescimento”. Eu só conseguia pensar no Tico, gato que vivia lá em casa durante a minha infância e que passou a vida se satisfazendo com a alta palatabilidade de sobras de arroz mais guisado de segunda e com a tecnologia de goles quentes de Parmalat vencido.
Tamanha demanda exige certa criatividade na hora de descrever sensorialmente os alimentos. De cabeça, lembro de ter visto coisas como “Sabores da fazenda”, “Paladares exigentes”, “À moda do chef” e os grandes sucessos “Sensações marinhas” e “Delícias do mar”, entre outras composições que não fariam feio numa estrofe da Cecília Meireles ou em uma metáfora do Herman Melville. Eu, que ainda trazia nas mãos a tal “Dreams de queijo” tentava conter as lágrimas de insegurança no canto dos olhos, agora vazios e desesperançados. Escolhi meia dúzia de opções e, ao chegar em casa esgotado, ofereci tudo à Kaoru. Ela, após cafungadas em todos os produtos, virou-se de costas e migrou para seus tesouros de tampas de Pinho Sol, caixas de papelão e cadarços velhos; deixando-me na fronteira de seu reino de sucatas, inabalável e insaciável.
(Imagem de capa com a gata Kaoru: Daniel Baz)
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
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