O Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô

Ilê significa “casa”, conforme o idioma Yorubá, de tradição nígero-congolesa; Axé faz referência à “força do sagrado” da mesma matriz africana; Mãe Nice, por sua vez, é quem faz a mediação da casa com a força do sagrado em vida, vinculada a Xangô, entidade Orixá cultuada pelas religiões afro-brasileiras, considerada deus da justiça, dos raios, dos trovões e do fogo. Como se pode perceber, o significado das palavras e a junção delas dão contorno expressivo e simbologia ao destacado terreiro de Umbanda e Candomblé, o Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô.

Um terreiro existente há quase três décadas em Jaguarão, e que possui uma história que se confunde com o perfil da liderança religiosa que acolhe seus “filhos” e atende o público. Primeiro na rua João Azevedo, 137, onde funcionou por dezesseis anos: de 26 de setembro de 1989 ao ano de 2005; o segundo endereço é o atual: rua Claudino Echevenga, 320, em posição limítrofe dos bairros Cerro das Irmandades e Cerro da Pólvora. Além das chamadas giras de Umbanda e Quimbanda, o toque do Candomblé incluído a partir de dezembro de 1999, o Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô é o espaço sagrado em que predominam o branco da Paz e da Clareza e o Vermelho de Xangô, onde cotidianamente Mãe Nice recepciona os visitantes e promove orientação com búzios.

O surgimento do Ilê Axé ocorreria cinco anos após o terreiro ligado ao Reino de Oxóssi fechar, devido ao falecimento de Edir Machado, o Senhor Edi, a quem Mãe Nice, de certo modo, deve uma passagem importante de sua vida e de sua história dentro da religião e tradição africana. A recordação do Cacique Edir, a propósito, suscita uma memória repassada pela “mãe de sangue” de Mãe Nice, Conceição Neiva. Quando a Mãe de Santo tinha um ano e meio, a sua irmã Edna, então recém-nascida, teve um problema de saúde grave. Então diagnosticada com leucemia, Edna foi levada à presença do Cacique Edir, saindo dos encontros religiosos sem o registro da doença. O episódio acabou influenciando Mãe Nice, que iniciaria na Umbanda por causa do restabelecimento do estado de saúde da irmã. Assim, “aos dez anos, eu entrei na corrente”, diz Mãe Nice, usando uma expressão que especifica a iniciação no terreiro.

Mãe Nice D’Xangô, que nasceu Eunice Almeida no dia 16 de abril de 1966 na cidade de Jaguarão. É filha de Sidnei Almeida e Conceição Neiva dos Santos Almeida, “pai e mãe de sangue”, ela frisa, sempre destacando a sua condição de religiosa. A Mãe de Santo é a primogênita de três irmãos. Enquanto Edna nasceria um ano depois do nascimento da irmã, Olavo viria três anos após. Mãe Nice é também a mãe de sangue – nunca é demais reforçar –, no caso, de Leandro, de 28 anos, e de Jéssica, de 26 anos. É ainda avó de duas netas: Isabela, de 6 anos, e Rafaela, de 4 anos. Sobre os quais ela devota profundo carinho e, sempre quando pode, procura estar junto. Já que a agenda de líder religiosa costuma ser um tanto quando cheia. Costuma tirar a parte da manhã para tarefas particulares e momento pessoal. O terreiro sagrado do Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô fica anexo da própria residência, na parte frontal. O pai de sangue, senhor Sidnei, mora com a filha após o falecimento de Conceição Neiva, no ano de 2018. Na maior parte do seu tempo, Mãe Nice está conectada com o terreiro e à comunicação com seus “filhos” espalhados por diversas localidades de Brasil e Uruguai. Do lado brasileiro, se destacam as cidades do Rio Grande, Arroio Grande, Pelotas, Rio de Janeiro; dos municípios uruguaios: Río Branco, São Carlos, Montevidéu, entre outros.

São inúmeros filhos que compartilham de uma visão de mundo a partir da Umbanda e do Candomblé, recebida como herança da figura e dos ensinamentos do “saudoso Babalorixá Pai Nilo D’ Xangô”, da cidade do Rio Grande. Foi Pai Nilo quem “indicou” Mãe Nice para a abertura do terreiro em Jaguarão. A gratidão e consideração por ele é tamanha, que o seu falecimento em 16 de dezembro rendeu homenagens e um ano de luto por parte do Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô. Um gesto que revela um pouco da conduta adotada pela “casa”.

Uma referência que Mãe Nice faz questão de não deixar restrita ao Ilê Axé. A sua representatividade social vai além de sua posição de religiosa. A imagem social de Mãe Nice se associa também a de uma destacada ativista e defensora das tradições africanas e das manifestações da negritude. Ela integra uma religião, que segundo ela, sofre com a desinformação e intolerância. “A nossa casa nunca foi violada”, mas ela diz que a intolerância religiosa existe e é forte. Neste sentido, além de transmitir uma religião, o Ilê Axé de Mãe Nice D’Xango , assim como muitos outros terreiros, acaba exercendo ou é levado a exercer uma espécie de missão social de relevo: a de “esclarecer” a população acerca de uma tradição e religião que merecem o devido respeito e a liberdade de manifestação. “A gente vive em uma ‘cidade de coronéis’”, explicita a Mãe de Santo, usando uma crítica que ecoa em diversos setores do município e que mentes críticas residentes ou radicadas em Jaguarão não hesitam em dizer. Quer-se observar, neste ponto, a luta do povo e da cultura negra e as relações de poder por trás da representatividade social e política da cultura afro-brasileira no sul do país.

De fato, quem passa a conhecer um pouco das ações e posições de Mãe Nice D’ Xangô logo percebe que ela atua respaldada por ações e projetos representativos. Ela é uma referência que atrai outras, diga-se. Nesta luta por direitos e em defesa de tolerância religiosa, outras biografias perpassam a de Mãe Nice. Neste contexto, “a vinda da Unipampa para Jaguarão deve ser considerada”. Com a abertura do campus da Universidade Federal do Pampa, acadêmicos passaram a se somar ao cenário da negritude local. Uma centena de pessoas são testemunhas e participam dos projetos realizados com base numa abordagem de resgate do social. E não apenas aqueles relacionados ao contexto do Ilê Axé. Os trabalhos orientados pela professora Giane Vargas Escobar, do curso de História, são lembrados por Mãe Nice. “São dois anos em Jaguarão, e a professora Giane tem feito muita coisa”, diz a Mãe de Santo, citando convênios da Universidade com o Ilê Axé e com o Clube 24 de Agosto, locais onde estudantes desenvolvem projetos de pesquisa e de extensão acerca da cultura negra e de temas da história jaguarense. Declaradamente ativista e feminista, professora Giane é responsável na Universidade pelo NEABI Mocinha, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas.

O ativismo de Mãe Nice e a representatividade do Ilê Axé Mãe Nice D’ Xangô se estendem à criação do Abi Axé, grupo voltado às diferentes formas de manifestações e preservação da Cultura Afro-brasileira, em que a representação de Orixás é posta em exposição e comunicação social. “Foi uma forma que a gente achou para levar um pouco da nossa cultura para fora”, diz Mãe Nice, se referindo a apresentações na esfera da comunidade. Em cinco anos de existência, o Abi Axé já se apresentou em São Lourenço, Melo e em espaços sociais jaguarenses, entre eles, Clube 24 de Agosto, Praça do Regente, Theatro Esperança.  A propósito, “o Abi Axé foi o único grupo afro a se apresentar no Theatro Esperança, depois de 100 anos”, diz Mãe Nice. Um projeto que ecoa socialmente, por meio da divulgação em redes sociais. Aliás, o próprio terreiro Ilê Axé se apresenta conectado ao mundo. Mãe Nice cita o filho Leandro como o seu “braço direito”, nesta tarefa. É ele quem “me ajuda com a divulgação” da religião e dos projetos vinculados ao Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô.

Formado em Turismo pela Unipampa, Leandro tem uma empresa de comunicação digital, a Maxus Comunicação, que no momento se dedica a promover a 8ª edição da Festa de São Jorge. O evento tem a coordenação de Mãe Nice e de uma destacada equipe de colaboradores. “A gente consegue reunir muita gente nesta Festa”, diz a coordenadora, lembrando que este ano a celebração do Santo Guerreiro, em Jaguarão, foi oficialmente incluída no Calendário Oficial de Eventos Turísticos do Rio Grande do Sul. São Jorge é considerado o patrono da Umbanda, associado a Ogum, que na mitologia Yorubá representa o orixá ferreiro, senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. “Vale lembrar que a história mostra que São Jorge foi acolhido como Orixá, em nossa religião”, lembra Mãe Nice, aludindo à sua própria concepção de vida. Ela que se notabiliza por “abraçar a todos”, independente da etnia. O Ilê Axé, a líder religiosa cita, não é um espaço exclusivo da negritude. “É aberto a todas as etnias. A branquitude também se encontra aqui. Todos são bem-vindos em nossa casa”, diz ela destacando que não há preconceito em seu terreiro, por exemplo, em relação aos gays. Para ela, não há vez para questões racistas e homofóbicas dentro do Ilê: “São todos seres humanos”, afirma Mãe Nice D’ Xangô, oferecendo ela mesma uma medida do que representa o seu Ilê, expressando com clareza o seu Axé.

(Imagem de destaque e galeria com Mãe Nice D’ Xangô e a yawô
Êmily de Araújo Edwards: Diarios de la Pampería)

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2 comentários sobre “O Ilê Axé de Mãe Nice D’ Xangô

  1. E com muita emoção que venho agradecer a vc estimado Renato S.M pela sensibilidade com a qual Vc escreveu sobre nossa caminhada . Parabenizo pelo seu trabalho e dedicação e respeito q vc tem trazido informações para nossa comunidade.As portas do Ilê estão sempre abertas para Vc .Grata mais uma vez pela matéria. Salve São Jorge Guerreiro e muito Axé para Vc e todos seus leitores.

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