Seguindo pela rua Vice Almirante Abreu, logo depois do Canalete e antes de chegar no espaço em que se alojava a antiga rodoviária, demos por nós caminhando um ao lado do outro. É uma das piores coisas que pode acontecer ao cidadão ocidental contemporâneo (quase tão terrível quanto ser chamado de “cidadão ocidental contemporâneo” por cronistas de vocabulário raso). Eu não sabia de onde ele tinha vindo e, por certo, ele também não poderia supor de qual ruela eu aparecera. O fato é que, neste mundo de bilhões de pessoas, onde habitam vocês, leitores, o Lionel Messi, a Suzana Von Richthofen e o cara que inventou a tomada de três pinos, coube a nós dois, e apenas a nós dois, dividirmos a mesma linha horizontal da calçada.
Mas esse possível poema quântico por trás do nosso encontro inusitado não poderia diminuir o desconcerto de estar lado a lado, a uma bafejada de distância, de alguém que nunca vi na vida. Acelerei o passo para voltar à minha solidão padrão de transeunte. Foi preciso muito método para aprendê-la. Passei, como todos nós, a infância inteira desenvolvendo este jeito de andar pelo centro das cidades, como quem traz em cada pulso uma placa platinada escrito “Não perturbe!”. Mas – não sei se ele vinha mais embalado do que eu, menos cansado, ou talvez apenas tivesse a musculatura mais forte do que a minha em um par de pernas mais longas – não foi possível ultrapassá-lo.
Decidi então diminuir a velocidade dos passos, relaxar o corpo e permitir que ele seguisse para seus assuntos e compromissos. O problema é que ele pensou o mesmo – ou talvez não tivesse os músculos tão fortes, nem as pernas tão longas – e agora, como se houvéssemos planejado tudo aquilo com muito cuidado, estávamos mais unidos do que nunca. Para piorar, nossos pés sincronizaram-se perfeitamente, o direito e o esquerdo, o direito e o esquerdo, o mesmo ritmo de uma dança jamais ensaiada, a mesma precisão de uma marcha, se as marchas não lutassem por nada que fosse urgente.
Mais um pouco e daríamos na rua 24 de Maio. Aproveitei para observá-lo de canto de olho. Ele vestia uns chinelos de dedo amarelos, de marca genérica, uma bermuda de sarja larga e branca, uma camiseta desbotada do Flamengo e óculos escuros de lentes espelhadas. Nesse escrutínio, pude perceber ainda que trazia fones nos ouvidos, de onde poderiam sair mil funks, mil sertanejos universitários, mas também faixas dos Ramones, dos Beatles, do Frank Zappa. Quem poderia saber no meio desta barulheira de carros?
Já havíamos caminhado mais de uma quadra juntos. A sinaleira da 24 de Maio ia fechar e lancei-me para frente; a corrente de carros quebraria nosso vínculo e eu poderia voltar para o conjunto de assuntos que me iam na cabeça, as contas para pagar, as aulas para preparar, os poemas para escrever, entre outras formas prudentemente pensadas por nós para continuarmos a sós. Mas ele não permitiu – avançou também, e chegamos juntos do outro lado da rua. Não tinha mais volta. Criamos uma mesma tragicomédia siamesa. Éramos um bode expiatório com oito patas, duas cabeças e quatro olhos debaixo do mesmo sol.
As pessoas que nos olhavam deveriam pensar que éramos grandes amigos, velhos conhecidos. Creio ter visto um professor da graduação que me cumprimentou, estendendo a sua saudação ao meu companheiro de caminhada, comprovando que o mundo nos via como uma coisa só. Seria mais fácil agora mantermos as aparências, fingirmos que éramos velhos conhecidos e seguir confiantes até o horizonte mais próximo, do que reconhecer que era uma fraude o nosso passeio, revelar que nossa estrada não era a mesma e que era um engodo nosso pequeno convívio.
Mas o que diriam de nós esses homens tristes de mãos pequenas e de cabelo ralo? Como poderíamos, neste momento tão decisivo para a humanidade, admitir que não nutríamos nenhum afeto um pelo o outro? Talvez fosse hora de virar-me, perguntar seu nome, seu lugar de nascença, sua idade, a canção que lhe escavava os ouvidos, o nome dos filhos. Será que tem filhos, será que são vivos os seus pais e irmãos, será que tirava notas boas no colégio e quis, como eu aos seis anos, virar palhaço de circo e se apaixonou, como eu aos oito, por uma guria de nome Isabel? Talvez fosse hora de examinar a cor de seus olhos, contar-lhe os dentes, discutir amenidades, a última novela, o mais novo escândalo político, o jogo de ontem, mas eu não sei bem o que se deu ontem, sequer estou seguro do dia em que estamos.
À parte isso, aí estava alguém novo em folha para os meus defeitos. Deveria haver alguma lógica por trás do destino que nos uniu. Antes que eu pudesse entendê-la, contudo, fui tomado por uma imensa angústia. Percebi que meus limites não me pertencem, que a realização do além de mim é impossível, ou melhor, que somente o outro pode ser o meu limite ultrapassado. O outro sou eu emancipado. O outro sou eu menos a carência; eu menos a imaginação; eu menos a cefaleia, menos o cisco no olho, a afta na língua; menos o colorido insuportável dos meus desejos. O outro sou eu quando decidi não mais me esperar, deixei a chave sobre o tapete, tranquei a porta dos fundos e saí sem mim.
Quando voltei, ele já tinha me abandonado. Não sei em que avenida nos separamos. Não posso garantir sequer que tenhamos nos separado em algum momento e, desde então, toda vez que saio para a rua, olho aflito para os lados, para trás, buscando alguém que ande ao meu lado, sem interesse nem pressa, e rompa de novo minhas barreiras, meu perfume forte, meu salário, minha miopia, minha prosódia, entre tantos outros abrigos que ergui do medo e do abandono.
(Imagem de capa: Ilustração/Reprodução)
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
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