A gente quer só comida. Por Daniel Baz

A Lu entrou na sala com um sorriso que ia de uma orelha a outra. É importante que o leitor saiba que a Lu fica contente com muito pouco: quando brota um pé de manjericão novo no quintal, quando há sol para arejar a casa e nutrir a pele, quando a nossa gata corre pela casa atrás de algo que só ela vê. Tudo isso é motivo de sólida alegria. No entanto, aquela face iluminada e colorida que ela punha diante de mim significava algo mais. Era felicidade genuína, plenitude existencial, coisa que só os budistas e o Gustavo Kuerten sentem. Aqui em casa, contudo, este tipo de harmonia suprema só se manifesta em uma ocasião: lugar novo para comer.

De fato, a Lu revelou-me, com uma riqueza de detalhes que lembrava um livro do Zola (e, como os personagens em suas histórias, nós também estamos sempre com fome), que uma nova pizzaria seria inaugurada em Rio Grande. A diferença dela para as outras era notável: todos os sabores inspiravam-se em artistas plásticos e escritores famosos. Foi o que bastou para me desanimar. Não sei por que as pessoas têm essa mania de tematizar nossa alimentação, criando ambientes repletos de referências e oferecendo “experiências gastronômicas complexas” quando só desejamos um bauru de chouriço para viagem. Há algo de muito errado em uma sociedade na qual encontramos Guimarães Rosa onde procuramos bordas recheadas de catupiry. Afora isso, creio que, quando alguém usa a expressão “comer com os olhos”, ninguém pensa em Goya.

Lembrei imediatamente de outra ocasião, na qual a Lu decidiu conhecer um bar em Porto Alegre inspirado na obra do Quentin Tarantino. Quando ela expôs o convite, pensei logo: qual o propósito de um estabelecimento desses? Não sei o leitor, mas eu, quando assisto a um dos filmes do diretor, não costumo pensar, “huuun, esta pessoa estripada me abriu o apetite; valia-me bem um salgado com bastante carne moída acompanhado de um Blood Mary.” Nunca. E não para por aí. Não contentes com este problema conceitual, os donos do bar intitularam os pratos com referências à carreira do escritor. Ora, se tem algo capaz de me tirar a fome é batizar um sanduíche de queijo como “88 loucos”. Se não bastassem essas questões de ordem culinária, me afligiram também as de natureza econômica, pois, em lugares assim, é possível cobrar cinco vezes mais por um “Au revoir, Shosanna” do que por aquilo que realmente está sendo servido: um potinho com seis bolinhos de batata.

Sou inflexível. Misturar comida com outros assuntos é sempre uma forma de piorar a comida. Além, é claro, de criar expetativas absurdas nos clientes. Exemplifico. Na tal pizzaria com temática artística, há um sabor chamado Clarice Lispector. Os entendidos na autora vão querer ingredientes muito específicos e, até onde eu sei, “vazio existencial” e “monólogo interior” ainda não podem ser adquiridos nos mercados, fato que pontua a favor dos mercados, inclusive. Pensem no preço que a Heinz colocaria em mantimentos dessa natureza, se um mero ketchup já está na casa dos 10 pilas. Mas tergiverso. Voltando ao fã de Clarice faminto, o sujeito olha para a fatia à sua frente e vê algo muito pior do que imaginara, pois, ao invés de “introspecção” e “tormentas psicológico-existenciais”, o que lhe oferecem, de acordo com o cardápio, é tomate seco e rúcula. Nem Macabéa teve pior sorte.

É natural também que alguns sabores jamais sejam solicitados. Quem teria coragem de erguer a mão e pedir uma “Graciliano Ramos tamanho família”? É coisa que só pode dar errado. Imaginem pedir uma Fernando Pessoa e receber uma Álvaro de Campos, comer uma Marcel Proust e passar a semana rememorando a infância, devorar uma Botero e ganhar 50 quilos. Não, não consigo confiar em comida inspirada em artistas. Como vou provar o sabor José Saramago sem saber as consequências que a ausência de pontuação causará no meu intestino inculto. E bem sabemos que toda pizzaria lida com a falta de um ingrediente pondo milho e batata palha no lugar. Conseguem entender com o quê estamos lidando?

Por fim, resta atentar para o maior perigo desse tipo de proposta, caso a moda pegue. Se os restaurantes começarem a nos oferecer obras de arte, nada impede que os artistas queiram preparar a nossa comida, o que não fará bem para ninguém. Eu não posso olhar muito tempo para um Picasso que já fico com azia. Se já é difícil de engolir o Romero Britto em uma parede, imaginem em uma bandeja! Seria o fim dos tempos, causado por desnutrição generalizada.

“Experiência gastronômica complexa” é acabar com a fome de forma prazerosa. O resto é golpe. Por isso, deixo esta crônica como meu atestado final de rebeldia, já que, aqui em casa, a Lu continua sorrindo diante de mim, os manjericões já foram todos colhidos, o sol se pôs faz tempo e a nossa gata dorme profundamente. Amanhã, nesta mesma hora, eu estarei engasgado com uma metade James Joyce, metade Jorge Amado. Torçam por mim.

(Imagem de capa: Ilustração/Reprodução)

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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.

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