Encontro precioso com a ‘arte afrodiaspórica’ do Coletivo Abayomis

Jaguarão – Entender o termo “arte afrodiaspórica”, à primeira vista, pode parecer complicado ou exigir da recepção uma nota explicativa. A expressão remete à dispersão de vários povos africanos que seriam escravizados no Brasil. “Quanto à arte, a gente remete aos navios que vieram para o Brasil no período escravocrata”, explica Êmily de Araújo Edwards, que compõe com a amiga Gezilane Silvestre da Silva, a Gê, o Coletivo Abayomis, conhecido em Jaguarão pela confecção das Abayomis, bonecas pretas feitas com retalhos de pano, sem costura alguma, apenas com nós e tranças.

Êmily cita uma arte surgida “em navios negreiros pelas mães negras africanas que transformavam retalhos que retiravam de suas vestes e davam às crianças como forma de acalanto, buscando trazer felicidade, amor, carinho, nobreza e proteção sendo com isto, um amuleto sagrado”, conforme trecho de editorial da página de Facebook do próprio Coletivo Abayomis, onde se destaca “Abayomi” como uma palavra com origem no yorubá e que significa “aquilo que traz felicidade ou alegria” sendo ABAY = encontro e OMI = precioso.

O termo vai remeter aos próprios perfis e a um encontro que tiveram Êmily e Gê, que se conheceram no ano de 2015, quando a primeira, amazonense, se mudou para Jaguarão para estudar Produção e Política Cultural no campus local da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), onde a amiga e parceira, cearense, então estudava, e no mesmo curso de graduação. Êmily é amazonense do município de Manaus, tem 27 anos, já Gê tem 31 anos, é cearense de Fortaleza. Quando ambas chegaram ao extremo-sul, talvez não imaginassem que iriam se encontrar e promoveriam o que costumam chamar de “encontros preciosos” com as bonecas Abayomis. Uma arte que literalmente transformaria a vida de ambas.

Mais ou menos um ano antes de Êmily desembarcar em Jaguarão, Gê participaria de uma oficina realizada no Quilombo Madeira, conhecido também como Cerrito, localizado a 45 quilômetros do centro urbano de Jaguarão. Gê vivenciou uma oficina de bonecas Abayomis ministrada por Andrea Lima, na época servidora na Prefeitura local e hoje vinculada ao coletivo Mulheres de Fronteira. Andrea teria aprendido a técnica de fabricação das bonecas a partir da concepção da “economia solidária”, no caso, após visitar quilombos da região de Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul. A base da técnica e a tradição da produção das bonecas consistem em aprender e repassar o aprendizado da arte para outras pessoas, considerando o entendimento do manejo do nó: o “Nyansapo” símbolo Adinkra, que significa “o nó do conhecimento”, é o símbolo veiculado na logomarca que destaca o nome do Coletivo Abayomis.

Um coletivo que tem como carro-chefe o fabrico das bonecas, mas que também produz pulseiras, colares, brincos e afins. A venda dos artesanatos, também comercializados sob encomenda, a ajudam a compor os orçamentos de Êmily e Gê. As duas, aliás, contam que sempre fizeram artesanatos, antes de conhecerem a arte afrodiaspórica. Já faziam bordados, pinturas – para ficar em dois deles. Gê mesmo diz que tem no currículo inúmeras oficinas do gênero em escolas, em especial, oficinas de Abayomis, que o Coletivo inclusive permanece ministrando. A ideia é promover uma “corrente preciosa” a partir da disseminação das artes, ela conta. “O público que mais se interessa é formado por mulheres, mas homens também podem fazer”, acrescenta Gê. Importante lembrar que a arte afrodiásporica representa uma mensagem de saber compartilhado e ao mesmo tempo funciona como veículo que transmite uma cultura que destaca a figura da mulher negra e a negritude como um todo. “A negritude que não só tem uma cara. Ela também representa a diversidade do povo negro”, destacam Êmily e Gê, citando a imagem facial das bonecas Abayomis, que não trazem rostos particulares específicos.

Além do compartilhamento de saber, o Coletivo ainda é responsável por realizar intervenções artísticas. Como a que fizeram no ano de 2016 no campus da Unipampa de Jaguarão. Gê conta que ela e a parceria tiveram a ideia de construir uma árvore de um meio e meio de altura com inúmeras Abayomis suspensas nos galhos. Montaram a árvore, postaram as bonecas nos galhos e deixaram em exposição em um local de grande fluxo de pessoas da universidade, recebendo uma boa recepção das pessoas e de boa parte do público universitário.

Já na experiência com a exposição, Êmily e Gê introduziriam uma espécie de releitura da fabricação das Abayomis. Elas passariam a produzir as bonecas para além de um formato tradicional. O tradicional, a boneca pequena, aquela que caprichosamente costuma caber na palma das mãos, confeccionada exclusivamente no nó de tiras de tecidos. Uma segunda forma de produção se baseia numa adaptação feita do fabrico original. As bonecas passaram a ser feitas em um tamanho maior, ganharam o acréscimo de materiais reciclados, roupagens e simbologias alinhadas à cultura dos Orixás. É do contato com a cultura do Candomblé que tiveram a ideia de fazer “bonecas grandes”. “Por que, não!?”, então se perguntaram. Perspectiva que as componentes do Coletivo Abayomis descobriram com a Yalorixá Nice D’ Xangô, que também pratica e “retransmite” a arte afrodiaspórica em Jaguarão e região. “Com Mãe Nice, aprendemos cânticos e simbologias africanas”, conta Êmily e Gê. As duas, hoje candomblecistas, agora levam as Abayomis por onde andam, sejam em feiras e eventos ou situações diversas.

Na passagem de 2016 para 2017, por exemplo, as duas componentes do Coletivo realizaram uma viagem como caronistas de Jaguarão a Salvador. Percorreram cinco estados da federação e xis quilômetros produzindo e disseminando a arte afrodiáspora, isto é, transmitindo a cultura negra e seus contornos tradicionais para quem surgia pelo caminho. “Cada pessoa que a gente foi conhecendo durante a viagem, a gente presenteava com uma boneca”, contaram Êmily e Gê, minutos depois da primeira ter ensinado o repórter a fabricar uma bonequinha Abayomi, em meio à entrevista concedida numa manhã de segunda-feira. A experiência, o repórter pode testemunhar, é bastante significativa. Levando-se em conta ainda o envolvimento das duas artistas, a energia com que se comunicam e a alegria com que transmitem a arte que não escondem gostar de paixão. “A gente sempre faz em pensamento elevado”, contam as duas artistas. “E as pessoas que compram se sentem felizes”, testemunham elas.  E “cada boneca tem o seu dono”, diz Gê, sugerindo, inclusive, a crença de que na realidade todos os “encontros da vida são ou devem ser preciosos”. Assim como foi o de Gê com Andrea, o de Êmily com Gê, o do repórter com as duas artistas, assim como podem ser ou ter sido o encontro de outras pessoas que venham a se encontrar ou que tenha encontrado as Abayomis, quem sabe retransmitindo uma mensagem fraternal do destino.

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(Imagem de destaque: Diarios de la Pampería/Coletivo Abayomis)

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