Eu amo meu vizinho da direita. Apesar de não saber seu nome, sua idade, seu escritor favorito ou o time de futebol para que torce, tenho por ele um carinho igual ao que dedico à minha gata, às crônicas do Rubem Braga e aos combos com refri e fritas. E o motivo é bem simples, como é simples todo amor verdadeiro: meu vizinho da direita não está aprendendo a tocar saxofone. O mesmo não pode ser dito do meu detestável vizinho da esquerda que, nos últimos tempos, encheu o ar ao redor de meus ouvidos com todo tipo de acorde dissonante, sem ritmo ou harmonia.
Estou terminando de almoçar no domingo. Me preparo para engolir o último e delicioso pedaço de pudim quando o céu é estripado por um fuéééééénn funesto que divide minha pequena felicidade em duas metades mortas. Estou assistindo a um documentário sobre pinguins na TV. Me tranquiliza observar os animais assim que chego do trabalho, na sua bonança cativante, curtindo o sal do mar e as benesses do sol. Sonolento, encosto a cabeça na almofada apenas para tê-la alvejada por um fióóóónnn frenético que me desperta à fórceps para os problemas do mundo. Na TV, todos os pinguins foram devorados por uma família de morsas barulhentas. Posso estar escovando os dentes, preparando aulas, lavando a louça, não importa, tenho sempre o olhar angustiado, o corpo teso, a esperar o instante em que um ré menor mal executado trincará minha alma alquebrada.
O que mais me angustia é a ausência de lógica (e melodia) em seu aprendizado. Quando estou me conformando com as sequências de fóns, o sujeito esganiça-se, de súbito, em um fíííííín. Quando acho que ele domina com segurança a arte dos fruuuuns, ele derrapa para um inconsequente frááááán. Quando penso que ele dedilha um clássico marcial, acordo no hospital com suspeita de AVC. E assim sobrevivo aos meus dias. Percebam que nada tenho contra o instrumento musical em si, o que me corrói (aí está uma palavra que parece extraída de um saxofone mal tocado) é ter que escutar Satanás brincando com uma vuvuzela no lugar onde poderia haver Charlie Parker.
Depois de algumas semanas, contudo, é possível ver uma melodia se formando. É “La vie en rose”. Meu vizinho da esquerda tenta reproduzir o clássico francês eternizado na voz Edith Piaf e no trompete de Louis Armstrong. Meu peito se ilumina, os ouvidos dilatam. As primeiras notas saem semelhantes à da composição original. Subitamente, os dedos se atrapalham, o instrumento geme como criança desmamada. No lugar da bela canção, sobram apenas trechos que lembram um buzinaço em favor do fim do mundo ou uma sirene estridente, daquelas que, na infância, anunciavam o fim do recreio ou que, no Japão, prenunciam alguma calamidade natural. Não, meus caros, a vida não tem cor nenhuma.
Altero minha rotina. Tento evitar os momentos dos catastróficos ensaios do meu vizinho da esquerda. Almoço na rua, descanso no trabalho, escrevo nas praças. Como é bom ouvir os passarinhos das praças, as crianças brincando, as musiquinhas dos vendedores de picolé e dos caminhões de gás. Os escapamentos dos carros ritmam a rua. Até a construção civil tem seu charme. Uma betoneira ligada pode ter seus encantos de Beethoven. Uma britadeira não perde em nada para Keith Moon. Um martelo que destrói um piso não faria feio na Timbalada. A vida é sonora e bela. No entanto, vivo uma mentira. Tenho que voltar para casa. Para minha vida. Não posso mais passar meus sábados cantando Raul Seixas com os mendigos. Preciso reerguer minha rotina. A Lu já não me vê há semanas. Amanhã é segunda. Já passou da hora de interpelar meu vizinho da esquerda, argumentar contra seu projeto, avisá-lo de sua falta de talento. Dizer que, graças a ele, hoje sou um fã do Kenny G.
Chego do trabalho cansado. Mal vi, foi-se mais um dia. É o fim íngreme de uma segunda-feira imensa. Amanhã, sem falta, eu chamarei meu vizinho da esquerda para um ultimato. Sua barulheira está com os dias contados. Ligo a TV com a esperança de descansar. Os programas policiais aboliram os eufemismos, o vilão da novela conseguiu tudo o que queria, os documentários mostram raposas saqueando ninhos de pássaros inofensivos, a Lu viajou para algum evento acadêmico aborrecido, meu vizinho da direita abre a garagem para guardar o carro, como o faz todas as noites, e demora para guardá-lo, como acontece todas as noites. O ruído da porta da garagem retalha a noite vulnerável. Tudo é trágico, solitário, inacabado. Desligo a televisão, apago a luz e fechos os olhos. Da esquerda da minha casa, forma-se no ar, acorde após acorde, “La vie en rose”, perfeita, no lindo timbre de um saxofone bem tocado e, nesse mundo em que já não sabemos mais o nome, a idade, ou o time de futebol das pessoas que habitam a casa ao lado, meu vizinho da esquerda ritma meu sono, embala meus sonhos, e eu repouso sereno como quem reza a paisagem tonificada das horas.
(Imagem de capa: Ilustração/Reprodução)
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Daniel Baz é professor do IFRS. Autor de “Antes que o mundo aconteça” (poemas), escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora de Rio Grande. Esta é uma delas.
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