Não tenho pensado noutra coisa senão nisso nesses dias que precedem o carnaval de Jaguarão.
É estarrecedor assistir o que a gestão municipal está fazendo com a “festa” (que é cultura) que mais define a identidade da cidade.
E, hoje em dia, não tem só a ver com cultura, tem a ver com economia, com gestão pública, com direito a lazer, com patrimônio histórico e cultural, ixe, tem a ver com preservação da história de uma cidade.
Tem a ver com não tratar isso como mera mercadoria a ser entregue nas mãos de quem queira (de qualquer jeito) responsabilizar-se. É ter que ter responsabilidade, vocês são a gestão da prefeitura dessa cidade a troco do que???
E então, “Política pra inglês ver” é exatamente por isso, pessoas que se envolvem na gestão pública pelo simples fato de quererem ser prefeitos da cidade, que tem sim projetos de poder e status e não vontade de trabalhar e construir pelo que é público, pelo que é do povo.
Jaguarão Saramandaia
O carnaval é do povo. O carnaval é da cidade. É resistência popular que se transformou, por força popular, em identidade da cidade. É isso que nos diferencia, que nos dá voz.
Olha que eu sou otimista, sempre, mas com a forma como o Brasil tem caminhado, na linha desse neoliberalismo desenfreado que tudo que toca vira mercadoria, produto, coisa descartável, infelizmente enxergo que o nosso carnaval, aquele da folia bonita, da festa pagã da liberdade, da brincadeira, do expurgo, vai acabar virando espaço confinado a quem puder pagar uma entrada. E, assim, vamos nos tornando mais animais, menos humanos, mais confinados, menos livres, mais robôs, menos pássaros.
Mais realidade nua, branca e crua, menos fantasia de carnaval, brilhante e leve.
No ano passado eu tive uma experiência linda, desfilando na escola de samba Estrela D’alva. Pela minha amiga, Lorena Fonseca Vieira, ser a carnavalesca, vivenciei um pouco o cotidiano do barracão, da construção dos carros, do envolvimento afetivo que gira em volta de uma escola de samba em uma cidade tão pequena como a nossa. O tamanho do afeto e do empenho não são mensuráveis.
A arte que envolve tudo isso não é mensurável.
Ela envolve vidas, envolve sonhos, envolve encantamento, envolve um respiro à vidas tão calejadas pelo que são os nossos anos. Sem direitos, e com tantos deveres.
E como o mito de Midas, vivemos uma época onde eles (quem tá no poder) acham que tudo que tocam vira ouro (lucro), mas na verdade de quem ainda tem sangue nas veias e pulsa, tudo o que eles tocam vira pedra.
É, é ano de resistência!
(Imagem de destaque: Reprodução)
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Mariana Passos Dutra é jaguarense e estuda Teatro na Universidade Federal de Pelotas; o texto de sua autoria foi originalmente publicado em página pessoal no Facebook.
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